Alguém e o Vício de Alguém

Por Alexandre Gonçalves*

Um percurso cansado numa sombra isolada. Luz apagada num sofrimento escondido. Publicação sóbria numa curva apertada. Ruas desperdiçadas e estradas finitas. Um beijo ou um abraço estão longe de ser suficientes. Feridas que magoam mais por dentro do que por fora. Cinzeiros repletos, garrafas despejadas e braços dependentes. Dias vagarosos e sentimentos cinzentos oriundos da Caixa de Pandora. Diálogos umbrosos e apinhados de nada. Um padrão de inferno gravado numa indumentária rasgada. Corpos despidos numa cama consumida. Famílias que suportam as tempestades satânicas. Esperanças fechadas e avenidas estreitas da cor do asfalto. Fantasmas, espadas e caminhos que torturam. Estou viciado, louco, adulterado e sem vontade de amar. Abri a porta, mas não pretendia entrar. As cordas que se enrolam à minha volta são tão espessas que me embaraçam todo e qualquer movimento. Mantêm-me prisioneiro, mas que revolta. Fraco, sinto-me tão fraco no meio desta viagem. Sem capacidade para interpretar e mudar. Esqueci-me do meu nome e estou entenebrecido entre a seringa, a caixa de cartão e o banco do jardim. Desliguei as luzes e o futuro é uma tela vazia. A dor é profunda e teimosa. O fogo e a morte espreitam a minha condição, sinto o odor putrefacto. O meu horizonte é um braço errante que não convive com a palavra acreditar. Expulsei, no âmago da escuridão, os meus planos, o meu sorriso e os meus livros. Uma redacção triste e uma cidade em escombros. Narrativas reais de uma masmorra. Abandono, fome, miséria, tristeza e infortúnio produzem um triste efeito. Ardo na labareda do mal e tento afogar as melancolias nas luzes da rua. Abracei o medo, o abismo e a alienação. Lágrimas que escorrem da alma e do coração. As mantas são curtas e a roupa está rasgada e suja, sou um trovador fracassado. O espaço até ao fundo é tão exíguo. Tenho frio, sede e fome, estou psicologicamente arrasado. Não tenho projectos cristalinos e adequados, nem tão pouco sonhos e imaginação. Entorpecido, combalido e desanimado, embarco nas profundezas do silêncio, da frustração, do desencanto e do inanimado. Tenho sérias dificuldades em ouvir o bater do coração. Deslizo para o vazio e contemplo tudo enegrecido e sombrio. Tamanha tristeza em cima dos meus ombros. A angústia amplia os meus destroços e tudo acarreta punição. A minha vida está embriagada e sem definição. Tantos sentimentos de desencanto pintados no muro. Puxei pela voz e somente consegui desmoralizar. Alguém que me apresente a luz e me outorgue o regaço. Alguém que afirme que a vida não é só dor, lamento e embaraço. Alguém que me diga que há uma saída. Alguém que me transmita que ainda vou a tempo de ser feliz. Alguém que repare em mim e me faça acreditar. Alguém que me dê coragem para gritar e lutar.

A falsidade da recente soberania provoca-me vómitos. Escolta-me até à morgue, já não tolero mais este declínio. Deposita na cave os meus restos mortais. Ninguém se deve perder assim, votos de uma lei que o proíba.

 

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação

da Câmara Municipal da Guarda

 

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