OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Para além de, com uma expressão imprópria do lugar que ocupa, intitular de “Miserabilismo Orçamental” um artigo publicado no jornal Público (2021-10-19) relativamente ao Orçamento de Estado (2022), se estar a meter em questões de ordem política da exclusiva responsabilidade do Governo o que, de acordo com o 5º princípio fundamental da Carta Olímpica, está impedido de o fazer, o Presidente do COP expressa uma visão distorcida e paradoxal do Movimento Olímpico.

Distorcida porque, ao estabelecer como objetivo primordial aquilo a que designa por “competitividade externa”, coloca a organização que dirige nos antípodas do espírito olímpico. A competição não deve ter um fim em si mesma. A competição trata-se, tão só, de um excelente meio pedagógico proporcionado pela prática desportiva que deve estar ao serviço da educação, da cultura e do desenvolvimento humano. Só na arte da guerra, que se traduz nos modelos de desenvolvimento do desporto fascistas tanto de direita como de esquerda, a competição, numa lógica darwinista, é um fim em si mesma.

Mas a visão do presidente do COP também é paradoxal na medida em que, tendo ele afirmado em 2013 que, se fosse eleito para o cargo, se comprometia a “elevar o nível desportivo do país” (Público, 2013-01-04), o que é facto é que, em 2013 ou em 2021, o nível desportivo do país, no estado em que o desporto se encontra, não se eleva com mais competitividade externa, eleva-se com mais prática desportiva interna.

Tenho para mim que o presidente do COP, desde a sua eleição, no quadro da Carta Olímpica e da Lei portuguesa, nunca percebeu verdadeiramente qual é a missão de um Comité Olímpico Nacional (CON). Em 2013, três escassos meses depois de ter sido eleito, “não poupou críticas ao Governo num debate sobre a atualidade do desporto português, organizado pelo Panathlon Clube de Lisboa”. E disse: “Exigimos que haja verdade”. (Lusa 2013-06-20). Mas qual verdade? A dele ou a do Governo? Cerca de dez anos depois, com resultados medíocres a um preço cada vez mais elevado e uma estrutura organizacional mastodôntica, o presidente do COP assina um inacreditável artigo sob o título “Miserabilismo Orçamental”.

Henry Mintzberg no livro “Estrutura e Dinâmica das Organizações” intitula este tipo de comportamento de “balcanização”.

Caracteriza-se por os líderes das estruturas intermédias dos sistemas e organizações procurarem açambarcar o poder tanto às estruturas orgânicas que lhe são superiores como às que lhe são inferiores. Quer dizer, da profusão de discursos que, ultimamente, o presidente do COP tem produzido, que leio com interesse e estupefação, se, por um lado, fico com a ideia de estar a ler um discurso que subtrai competências da exclusiva responsabilidade da tutela política, por outro lado, fico com a ideia de que estão a ser subtraídas competências às Federações Desportivas. No fim, a única certeza com que fico é a de que não são discursos cujo conteúdo esteja de acordo com as competências que decorrentes da Carta Olímpica devem ser exercidas por um CON.

Todavia, o Programa do XXII Governo até deu abertura para que o presidente do COP pudesse levar a cabo essa grande missão a que se propôs ao tempo da sua candidatura: “Se for eleito para o cargo, compromete-se a “elevar o nível desportivo do país” e ajudar a “potenciar a capacidade organizativa das federações”. (Público, 2013-01-04). Se olharmos para o Programa do XXII Governo podemos verificar que o dito considera dois grandes objetivos: (1º) No âmbito do alto rendimento desportivo: “Afirmar Portugal no contexto desportivo internacional e (2º) No âmbito da prática desportiva de base: “Colocar o país no lote das quinze nações europeias com cidadãos fisicamente mais ativos, na próxima década”. Quer dizer, trata-se de, num equilíbrio eurítmico, conciliar o aumento quantitativo e qualitativo da prática desportiva de base com a melhoria qualitativa das participações em competições internacionais sobretudo (suponho eu) nos Jogos Olímpicos.

Há muito que o presidente do COP, pelo menos desde 2014, devia ter apresentado ao Governo e aos portugueses um estudo sobre o nível desportivo do país no quadro dos países da UE e explicado que, na euritmia do conceito, a estratégia passava por investir na base do Sistema Desportivo, quer dizer, no aumento do ensino e orientação. No estado atual do desporto nacional com taxas de descarte dos vários desportos a atingirem os 90% e a mais baixa taxa de prática desportiva da UE, investir no alto rendimento (competitividade externa), com a agravante de também ser através de naturalizações de oportunidade desportiva, por mais medalhas que se possam ganhar nos Jogos Olímpicos, o nível desportivo do país só pode decrescer até ao padrão da Coreia do Norte que no Rio (2016) ganhou sete medalhas Olímpicas.

Entretanto, o futuro está congelado num estuporado contrato-programa de desenvolvimento desportivo nº 48/2005 (DR – II Série Nº 70 – 11 de Abril de 2005) que, sem nunca ter sido avaliado por entidade independente e competente, está a estrangular o desenvolvimento do desporto nacional. Não há esperança que o possa salvar. De momento, a esperança, parafraseando Arendt, é um dramático entrave à organização de um futuro.

Ela é perigosa e traiçoeira. Em tempos de escuridão, só a ação pode salvar o desporto. Terão os presidentes das Federações Desportivas coragem para, sem pedir licença a ninguém, deixar para trás uma política ao estilo quero posso e mando, construída à revelia de tudo e todos, que está a deixar uma teia de interesses e de conflitos insanáveis? Não há maus soldados há maus líderes. Terão os presidentes das Federações Desportivas coragem para, coletivamente numa liderança verdadeiramente partilhada, assumir a construção de um futuro diferente daquele que aconteceria caso não tivessem sido os verdadeiros líderes das respetivas federações?

Uma coisa parece-me inquestionável: O futuro não lhes perdoará.

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana