OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

O presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, veio a público dizer que se notou o contraste de atitudes por parte do Presidente da República, que recebeu os campeões mundiais de futsal antes dos medalhados de Tóquio (2021) (Noticiasaominuto, 2021-01-13).

Não foi só ele… foram muitos os portugueses que notaram o tal contraste e ainda bem. E até esperam que o Presidente da República, enquanto garante do regular funcionamento das instituições democráticas, faça notar, ainda mais, esse contraste. E porquê? Porque, do ponto de vista da dignidade humana, é inadmissível o que se está a passar no desporto nacional em matéria de naturalizações de aviário por motivos de um inaceitável oportunismo politico-desportivo.

Era perfeitamente previsível que os atletas olímpicos de naturalização de aviário, em caso de pódio nos Jogos Olímpicos de Tóquio (2020), levantariam problemas que nunca deveriam existir.

Porque, para além das burocracias e de todos os chauvinismos mais ou menos parolos, em matéria de identidade nacional, por muito que se diga o contrário, há campeões como Patrícia Mamona, Fernando Pimenta e Jorge Fonseca e campeões que, independentemente do Cartão de Cidadão, por mais lavagens ao cérebro que se possam fazer através da comunicação social, nada têm a ver nem com o país, nem com os portugueses e, muito menos, com o desporto nacional.

Por isso, a fazer fé no extraordinário relato de Ana Oliveira (A Bola, 2021-08-14) os responsáveis pelas naturalizações de aviário deviam saber que estavam a abrir uma espécie de caixa de Pandora.

Enquanto dirigentes políticos e desportivos, na sua obsessão por medalhas olímpicas, não perceberam onde se estavam a meter.

Felizmente, Patrícia Mamona, uma extraordinária atleta portuguesa de ascendência angolana, de uma forma simples e clara, ao estilo da criança que se atreveu a dizer que “o rei ia nu”, numa entrevista à Revista Expresso (2021-07-23), encarregou-se de lhes explicar que “o desporto tem pátria e deve mantê-la”.

Patrícia não se referia a uma pátria de cartão de cidadão, referia-se a uma pátria de história partilhada, de memórias vivas, de cultura geradora de progresso, de sentimentos perenes, de alegrias e tristezas, de desaires e celebrações, de relatos e de projetos, quer dizer, de uma pátria que está no coração de cada um e de todos. Sempre foi assim.

Na Grécia antiga o jovem era levado à escola de ginástica, onde os “paidotribes” lhe fortaleciam o corpo, para que fosse um servo fiel de espírito vigoroso e nunca fracassasse na vida por motivos da debilidade corporal.

Depois, quando, para além dos conflitos de guerra, o jovem competia nas lutas, nas corridas, nos saltos e nos lançamentos nos Jogos Olímpicos, fazia-o em honra da sua cidade natal porque era a glória dela que ele desejava projetar. E este amor pátrio que era cultivado na Grécia antiga, em meados do século XIX, nos primórdios do desporto moderno, voltou a acontecer quando, na máxima que viria a ser olímpica o “citius, fortius, altius” do frade Didon, o “altius” surgia em último lugar na medida em que o atleta, ao competir, na perspetiva do Cristianismo Muscular, projetava as suas performances às Alturas, quer dizer, para além dele próprio. E foi com este espírito que, em finais do século, Pierre de Coubertin conseguiu sentar à mesma mesa de negociações os líderes de vários países europeus a fim de lhes propor que aceitassem transpor para os terrenos de jogos as lutas políticas que, até então, eram resolvidas nos campos de batalha. E, assim, também aconteceu durante todo o século XX com as disputas ideológicas da Guerra Fria em que dois modelos de sociedade e de desenvolvimento do desporto se confrontaram nos Jogos Olímpicos. Um modelo ao serviço dos interesses dos Estados, o outro ao serviço dos interesses dos cidadãos.

No fundo, Patrícia deu uma lição aos dirigentes políticos e desportivos que, pomposamente, dizem que o país não tem cultura desportiva quando são eles próprios os primeiros a demonstrá-lo. Isto é, Patrícia acabou por lhes dizer que tem de existir uma cultura ética que, sustentada nas nacionalidades, deve enquadrar o Movimento Olímpico (MO) sob pena de, se assim não for, os Jogos Olímpicos serem transformados numa espécie de campeonatos de países / clube representados por autênticas legiões estrangeiras de atletas. Então, os Jogos Olímpicos, tal como na Roma antiga, acabam reduzidos a uma espécie de Circo Maximus à escala global em que os atletas são transformados em gladiadores e os treinadores e dirigentes em lanistas.

Neste sentido, as palavras de Patrícia, “o desporto tem pátria e deve mantê-la” deviam ser gravadas nas paredes do COP a fim de lembrar a todos os portugueses e, em especial, aos atletas olímpicos, do presente e do passado, que nem o MO se esgota nos Jogos Olímpicos, nem os Jogos Olímpicos são uma competição de equipas de clubes chauvinistas porque, como referiu Patrícia, “acima da competição, é preciso ter amor à pátria”. Até os chineses (RPC) retardatários por motivos políticos nos Jogos Olímpicos, hoje, entregues ao capitalismo económico, fazem gravar nos equipamentos pessoais dos atletas olímpicos um verso do hino nacional que diz: “Levanta-te e marcha”.

A separação da identidade nacional das Missões Olímpicas tratou-se de uma decisão tardia que nunca resultou, antes pelo contrário.

Para Coubertin, a identidade nacional era uma questão de superior importância. Em 1901, na obra “Notes sur l’Education Publique”, defendeu que as características nacionais são uma condição indispensável à vida dos povos que, longe de enfraquecê-los, os animava e fortalecia. E este nacionalismo puro, racional e sadio, devia ser “fortalecido por um internacionalismo sincero”. E Coubertin esclarecia que não se tratava de um internacionalismo socialista, revolucionário e utópico que, através de um “nivelamento gigantesco”, faria do universo civilizado “um estado sem fronteiras” do qual resultaria a “maior das tiranias”. E dizia-o com toda a razão na medida em que, no desporto, nunca existirá um internacionalismo eticamente aceitável enquanto os países endinheirados, revolucionários ou dirigidos por gente politicamente devassa, andarem pelo mundo a usurpar atletas para as suas representações nacionais a fim de esconderem a mediocridade das políticas públicas, através de uma vergonhosa esquizofrenia pela conquista de medalhas olímpicas como acontece em várias ditaduras por esse mundo fora.

Mas Patrícia ainda foi mais longe quando afirmou que, “acima da competição, é preciso ter amor à pátria”. O alcance de tal afirmação é de superior importância na medida em que a sociedade confere ao atleta olímpico um estatuto de campeão que, na realidade, é o que ele é. Por isso, os atletas olímpicos, passados e presentes, devem ser os primeiros a honrar o significado da palavra campeão que resulta do germânico “kampjo” de campo de batalha (kamp). Durante a Idade Média, uma das características da lei anglo-normanda que se replicou por toda a Europa, era o julgamento no campo de batalha onde a justiça se decidia pelo confronto das armas. E, assim, as crianças, as mulheres, os deficientes por idade ou enfermidade ou, entre outros, o clero, tinham direito a nomear o seu campeão que, por procuração, lutava em seu nome. Ora, no espírito e letra da Carta Olímpica, do ponto de vista externo, quem melhor que os atletas e ex-atletas olímpicos pode defender o orgulho de ser português? E quem melhor do que os atletas e ex-atletas olímpicos pode defender os milhares de jovens portugueses que, todos anos, são ostracizados da prática desportiva?

Quantos deles teriam atingido o mais alto nível competitivo se não lhes tivessem sido negadas as oportunidades que, do ponto de vista constitucional, tinham direito?

Perante a agressão de que estão a ser vítimas, os atletas olímpicos têm a obrigação de defender os interesses dos seus concidadãos, sobretudo dos mais desfavorecidos, relativamente ao acesso à prática desportiva no que diz respeito ao princípio da igualdade e, daqueles que revelarem capacidades e competências, no respeito pelo princípio da equidade, no acesso ao alto rendimento. Ora, tal atitude não pode admitir uma oportunista política de naturalizações de aviário justificada por razões desportivas que só servem para estrangular as hipóteses de prática desportiva aos nacionais dos países onde isso acontece.

Neste sentido, os atletas e ex-atletas olímpicos, enquanto campeões que são, numa reflexão amplamente partilhada com o país, deviam assumir como credo das suas instituições a defesa de um desporto para todos do qual, em termos ético-morais, possam resultar os campeões verdadeiramente ao serviço dos portugueses, do desporto e do país e não de modelos prenhes de burocracia e mediocridade que, de Ciclo Olímpico em Ciclo Olímpico, têm vindo a provocar o desastre do desporto nacional que, apesar de toda a pompa e circunstância, apresenta as mais medíocres taxas de prática desportiva da UE (27) e resultados olímpicos insatisfatórios.

Não se pode entrar no ridículo do “já cá canta mais uma” sem antes fazer uma reflexão ético-moral da história de cada medalha.

Porque, o princípio mais sagrado do Olimpismo é o de que a luta deve ser, justa, nobre e leal. Um campeão tem história, tem cultura, tem deveres e tem direitos que não podem ser pervertidos ao dobrar de cada Ciclo Olímpico através de naturalizações de aviário desencadeadas e assumidas por dirigentes ávidos por mostrar serviço. Porque, se o MO assim continuar, chegará o dia em que os estádios olímpicos serão transformados em circos romanos e o desporto moderno com as suas raízes agonísticas na cultura helénica, a sua pedagogia nas escolas públicas inglesas, a sua organização no quadro do industrialismo, a sua pujança na dinâmica do capitalismo e o seu internacionalismo na lógica do processo colonial, deixará de existir enquanto tal.

Por tudo isto, o Sr. Presidente da República está perante uma situação profundamente incómoda. Não se compreende como é que pode ser possível condecorar na mesma cerimónia alguém como Patrícia Mamona que afirma que “acima da competição, é preciso ter amor à pátria” e, simultaneamente, alguém a quem, à última da hora, foi concedida a nacionalidade portuguesa a fim de, numa jogada de oportunismo, captar sucesso desportivo. Se tal cerimónia acontecer, o Presidente da República colocará a sua chancela política sobre um processo profundamente errado como o da existência de uma política pública sustentada em naturalizações em cima da hora a fim de salvar um modelo de desenvolvimento do desporto que, desde 2005, tem vindo a provar que não funciona.

É tempo de se começar a construir um novo paradigma para o MO nacional que, de acordo com a Carta Olímpica e a lei portuguesa, ultrapasse os dramáticos erros cometidos em 2005 que se têm vido a agravar ano após ano. Espera-se do Presidente da República uma palavra de esperança enquanto sinal de partida para a construção de um desporto verdadeiramente ao serviço dos portugueses, sobretudo dos mais desfavorecidos.
Quanto a Patrícia Mamona, enquanto grande atleta e ainda melhor cidadã, muito obrigado.

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana