OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Ao Sr. José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), não lhe faltaram oportunidades na vida para demonstrar o seu valor e competência e todos nós poderíamos concluir que ele foi um verdadeiro agente portador de futuro.

Infelizmente, para mal dele e do desporto nacional assim não aconteceu e, hoje, ao cabo de vinte anos, o Sr. Constantino anda pelos jornais, em busca do tempo perdido, a plantar artigos que só servem para tentar dourar mais um fracasso que foram os resultados da Missão Olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de Tóquio (2021).

Resultados que, como está claramente explicado nas páginas do jornal A Bola (2021-08-14), só não foram piores dos últimos vinte anos devido à superior competência de Ana Oliveira que, ao serviço do Benfica, garantiu, em tempo recorde, a naturalização de um atleta cubano a fim de estar presente nos Jogos Olímpicos de modo a ganhar uma medalha para o triste medalheiro olímpico português. E foi o que aconteceu.

Tenho muita pena que o Sr. Constantino não tenha animado as excelsas reflexões em que agora anda envolvido, a partir de 2013 quando foi eleito presidente do COP. Na realidade, ele organizou um congresso em circuito fechado e instituiu uma Comissão de Orientação Estratégica que, bem vistas as coisas, não chegou sequer a funcionar. Não tenho conhecimento que o Sr. Constantino nos quase nove anos de presidência do COP, alguma vez, tenha promovido uma discussão séria e livre sobre o desporto nacional e o seu desenvolvimento, participada por gente verdadeiramente informada e conhecedora do desporto nacional a começar pelos próprios presidentes das Federações Desportivas e dirigentes de clubes que, por esse Portugal fora, “transportam as balizas às costas” recebendo muito pouco em troca e, às vezes, tão só ingratidão como, recentemente, foram obrigados a constatar. Quer dizer, para além de umas conferências de uns tudólogos da moda para entreter os basbaques, que tivesse verdadeiramente significado, nada aconteceu. Por isso, agora que o Sr. Constantino corre o risco de ser mandado para casa, é simplesmente patético vê-lo com uma frequência inusitada nos jornais a mostrar uma sapiência que não tem porque, se a tivesse, tinha-a confrontado com outras sapiências a partir de 2013 e hoje, certamente, não estaria na situação embaraçosa em que está que é a de tentar explicar o inexplicável.

Desta feita, o Sr. Constantino publicou no jornal Público (2021-08-24) um artigo sob o título “Explicar os Resultados pela Demografia” onde continua a esgrimir argumentos contra teses que ninguém defendeu, acabando por concluir aquilo que muita gente anda há bastos anos a dizer sem que ele tivesse prestado a mínima atenção. Por isso, o artigo em causa, para além de não explicar nada, ainda estabelece mais confusões porque, se até agora já era difícil perceber o que o Sr. Constantino pensa, a partir dos artigos que, ultimamente, anda a publicar, tornou-se impossível. E as confusões começam logo quando pretende colocar em sentido aqueles que se atrevem a tocar no tema da avaliação dos resultados dos Jogos Olímpicos na medida em que, segundo o Sr. Constantino, não se deram ao trabalho de ler “os inúmeros estudos sobre o tema”. Fica sempre bem, a qualquer honoris causa, ao estilo académico, fazer uma tal afirmação por que dá estilo e credibilidade. Todavia, o que certamente todos nós gostaríamos é que o Sr. Constantino indicasse dois ou três dos estudos mais recentes sobre o assunto para os ignorantes da matéria, puderem perceber onde é que ele enquadra o seu excelso pensamento.

Se o Sr. Constantino tivesse indicado as suas fontes permitir-nos-ia, a nós, “atrevidos ignorantes”, perceber o que é que ele, exatamente, quer dizer quando se refere a “competitividade desportiva” de um país. E, enquanto simples iniciados sem um diploma “honoris coisa” não nos atreveríamos sequer a envolvermo-nos nas altas lucubrações do Sr. Constantino que, na sua habitual complexidade, não temos capacidade para compreender. Todavia, em função daquilo que conheço da produção literária do Sr. Constantino, bem como do espírito e da letra dos Contratos Programa por ele assinados nos últimos dezassete anos, tanto em nome do Instituto do Desporto de Portugal (IDP) com o COP em 2005, bem como a partir de 2013/14 em nome do COP com o Instituto Português da Juventude e Desporto, sou levado a presumir que o seu conceito de “competitividade desportiva” não vai além de umas medalhas olímpicas conquistadas pelos países nos Jogos Olímpicos.

Outra conclusão do discurso do Sr. Constantino que, pela sua complexidade, nos deixa completamente arrasados diz-nos que: “… a produção de resultados desportivos não é determinada apenas pela dimensão da população de um país, mas pela forma como cada país trata o seu sistema desportivo e nele o sector do alto rendimento”. Quanto à dimensão da população já houve quem explicasse ao Sr. Constantino que as coisas não são bem como ele diz devido às quotas a que os países estão sujeitos. Quanto ao setor do alto rendimento fico sem perceber porque é que o Sr. Constantino aceitou assinar e executar um protocolo dirigido para a preparação olímpica completamente à parte de um modelo integrado de alto rendimento desportivo. Um modelo que, por um lado está organizado para a participação nos Jogos Olímpicos e é gerido pelo COP e, por outro lado, para os Campeonatos Regionais e do Mundo gerido pela Federações Desportivas. Recordo que, em 2005, das poucas vozes que se levantou contra este modelo anacrónico foi a do Presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) Fernando Mota. A partir de então, para além das Federações Desportivas terem sido subtraídas de recursos significativos, passaram a ser obrigadas a gerir dois subsistemas desintegrados e à margem do processo de desenvolvimento das respetivas modalidades que, por lei, sempre lhes pertenceu e pertence. Fico mesmo admirado como é que o Sr. Constantino escreveu a referida frase tendo em atenção não só os contratos programas que assinou bem como aquilo que tem escrito, sobretudo ultimamente, acerca do assunto.

Outra frase lapidar do Sr. Constantino é a que diz que para a “produção de resultados desportivos”, “o que é determinante é o desenvolvimento e o modo como se encontram expressos os factores económicos, culturais e sociais que influenciam o grau de competitividade desportiva”. Trata-se de uma lapalissada que tanto pode ser verdadeira como não. Quer dizer, depende. A Finlândia ganhou uma medalha no Rio e duas em Tóquio, todavia, no Ranking Mundial de Competitividade está em 11º e Portugal em 36º e a Hungria que ganhou 19 medalhas está em 42º. E agora!?

Quando o Sr. Constantino há cerca de dezassete anos, em 2005, assinou o contrato programa pelo IDP devia ter começado por ler Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) do ano 2000 que estabelece um quadro filosófico sobre desenvolvimento que, a ser tido em conta o futuro do desporto nacional teria sido bem diferente. Mas o Sr. Costantino em 2013/14 teve uma oportunidade de corrigir o rumo desastroso que o desporto prosseguia comparando a performance do desporto português com os demais países europeus não para copiar modelos a fim de se desencadear ilusórios sucessos de causa efeito como pretende pôr na boca daqueles que o criticam, mas para tirar ilações acerca da mediocridade das decisões levadas a cabo em 2005 e reafirmadas em 2013/14.

Quando no artigo em causa o Sr. Constantino afirma que “o que se passa a montante, designadamente no âmbito do desporto infanto-juvenil (escola e clube) e na orientação e especialização dos jovens praticantes desportivos, influencia a produção de resultados desportivos de excelência” até posso estar de acordo com ele, mas não pelas causas que invoca. A explicação da minha parte fica para outra ocasião. O que eu não percebo é como foi possível o Sr. Constantino enquanto responsável por organizações que têm por obrigação ter uma visão global e integrada sobre o desporto nacional, o IPJD da parte píblica e o COP da privada, aceitou assinar contratos de uma preparação olímpica que, para além de não terem qualquer sentido a não ser cosmético, estavam completamente desintegrados do Sistema Desportivo do país a funcionar marginalizando a competência das Federações Desportivas como se constata pelo relatório Federação Portuguesa de Atletismos integrado no Relatório do COP ao Jogos do Rio (2016) onde se afirma textualmente “os objetivos definidos pelo COP, não foram discutidos nem propostos pela federação”. Por isso a pergunta é: E para os Jogos de Tóquio os objetivos foram definidos por quem? E para os Jogos de Paris? Espero que estas e outras questões sejam expressas nos relatórios dos chefes de equipa dos desportos presentes em Tóquio porque, só assim, é possível melhorar e evoluir.

Depois, o Sr. Constantino vem com a narrativa do costume que já só impressiona a generalidade dos jornalistas que, de quatro em quatro anos, acordam estremunhados no meio dos Jogos Olímpicos. Diz ele: As análises contabilísticas (de medalhas, demográficas ou de investimento per capita), são importantes, mas não devem ignorar a realidade multifactorial, mais ampla e complexa do sucesso desportivo”.

Por mim, que já é a segunda ou a terceira vez leio esta narrativa fico completamente paralisado perante a necessidade de sermos capazes de compreender e agir sobre a “realidade multifactorial” do fenómeno desportivo.

E até dou por mim a pensar se não será qualquer coisa do outro mundo porque deste não é certamente. E não é deste porque ainda em 15 de Março de 2021 o Sr. Constantino escrevia no jornal A Bola: “O investimento desportivo, numa perspetiva de afirmação de excelência, prossegue princípios, critérios e etapas que não são substancialmente diferentes dos adotados noutras áreas”. Ora, se em Março as decisões estavam ao alcance de qualquer mortal um porque é que agora o Sr. Constantino nos vem amedrontar com o “papão” da “realidade multifactorial”?

Finalmente o Sr. Constantino, para surpresa geral afirma que “cerca de 80% das provas em disputa (nos Jogos Olímpicos), Portugal não apurou qualquer atleta. E este, sim, é um sinal da fragilidade do sistema desportivo nacional, que o brilho dos resultados alcançados, designadamente as medalhas, não deve ofuscar”. Tal afirmação, na minha opinião, revela um sentido profundamente equivocado da função social do desporto que nada tem a ver com a Constituição do País, a Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto e, até, com a Carta Olímpica.

Felizmente, Portugal só esteve presente em 20% dos eventos porque, o contrário significava, tão só, que os recursos já de si escassos tinham sido gastos a contratar atletas estrangeiros porque portugueses com taxas de descarte de 90% aos 18 anos de idade já não existiam.
E quando o Sr. Constantino chamando a atenção para “o brilho dos resultados alcançados” em Tóquio eu tenho de perguntar: Mas que brilho?

Aqueles que falam do brilho dos resultados alcançados em Tóquio deviam atender ao que realmente resultou de Tóquio. Porque os resultados de Tóquio só servem para ofuscar ceguinhos. O que é facto é que à parte da medalha de Pichardo, que Cuba devia faturar a Portugal pelo menos 20 milhões de euros, sem qualquer desprimor para os atletas, técnicos e dirigentes, restam duas medalhas e meia que não chegam sequer para ultrapassar as três medalhas dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e, muito menos, os resultados dos melhores Jogos Olímpicos de sempre para os portugueses que foram os de Los Angeles (1984). Quer dizer, em nove anos de mandato o Sr. Constantino conseguiu três medalhas, quer dizer uma e meia por mandato e um custo de mais de dez milhões de euros por cada uma.

Finalmente, deixe-me dizer-lhe Sr. Constantino que não lhe fica nada bem, à margem dos verdadeiros responsáveis pelo que acontece de desporto em Portugal que são os atletas, os treinadores, os dirigentes dos clubes e das federações bem como as respetivas famílias que também pagam a fatura, andar na comunicação social em busca do tempo perdido a produzir uma narrativa sem qualquer sentido como se fosse um simples espetador daquilo que aconteceu.
O que é facto é que nos últimos vinte anos o Sr. Constantino ocupou durante cerca de catorze anos posições de grande poder no Sistema Desportivo que lhe permitiram orientar os destinos do desporto nacional. O Sr. Constantino foi presidente da Confederação do Desporto de Portugal (CDP) de 2000 a 2002, presidente do IDP de 2002 a 2005 e presidente do COP desde 2013. Como é que agora quer olhar para a fotografia do desporto nacional como se nada tivesse a ver com o assunto. O Sr. Constantino faz parte da fotografia e, porventura, até é a figura centra. Por isso, não pode pretender ser a solução do beco sem saída em que o desporto nacional se encontra.

Desculpe-me que lhe diga, mas o Sr. Constantino não é a solução, o Sr. Constantino é o problema.

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana

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