OPINIÃO
Por Alexandre Gonçalves*

Atmosfera contaminada e ocupação incoerente alicerçam a desafinada evolução. Venham por mares, rios, serras, colinas, vales ou planícies incriminar os responsáveis. Mãos dissimuladas e descuidadas que semeiam a poluição. Homens insanos que assolam paisagens, exterminam o ar da sua própria existência e derramam bálsamos desagradáveis.
O futuro está cansado e sepultado numa porção de terra asfixiada e assombrada. As conveniências do capitalismo constituem segredos esboçados em telas cinéreas e pintados em tons de parca luminosidade. Na província das aparências, do dinheiro e dos enganos vamos eivando de forma reiterada. Navegando nos poluídos oceanos unicamente prescrevemos opacidade.
A luz é arisca e o ar anavalha. Inúmeros desejos por colorir e tanta existência por existir. Pensadores sem destreza que desprezam a batalha. Homens alienados que nunca escutaram as palavras convergir e coexistir.
O meio ambiente é testemunha da minha angústia e franzina condição. O solo, infectado e deslustrado, mostra dificuldades em sobreviver e já não sorri. Cidades labirínticas imersas no entusiasmo da invenção. Difundem poluição que nunca subscrevi.
Observo o rio e a montanha, locais onde me quero aventurar. Desejo compreender tudo aquilo que me rodeia. Acredito que os lugares destruídos podem reflorescer e fragmentar a cadeia. Desfilam sentimentos desertos e afeições de reduzida beleza.
Quem defende os fundamentos do mal e a razão do capital? Quem vai edificar a ponte entre o conflito original e o conflito essencial? Quem reage à desordem económica, ao despotismo, à destruição ambiental e à inverdade? Quem nos vai dar satisfações num presente poluído e indesejado?
Quando é que morre a saudade e germina a racionalidade? Quem vai ser flagelado ou alvejado? Quem vai continuar a ouvir as canções descompassadas? Quem vai ganhar por viver em águas pútridas e paisagens embaçadas?
A vida que os homens idealizaram está morta, é tempo de recuperar e abandonar o caminho contaminado e preocupantemente cálido. Raiva derramada no pano das incongruências. Cogitei em indivíduos destruídos, tristes, demolidos e desarmados que se encontravam em cima de um palco maculado e pálido. Difícil tranquilizar a hidrofobia que desfila no âmago das perturbações angustiantes.
Existem árvores de ramos pacientes e de folhas perseverantes. Na vida é tudo tão veloz e passageiro. Espelho da conjuntura que desguarnece tantas existências. O oceano dos meus olhos tem um sabor amargo, excessivamente salinizado.

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda

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