OPINIÃO

Por Alexandre Gonçalves*

Imensas regiões de Portugal agasalham na relação com os touros um elemento essencial da sua identidade cultural. A tourada é um espectáculo ilustre que ao vivo é pago e concretizado num recinto totalmente fechado. Somente assiste à tourada ao vivo quem quer.

Na televisão, quem não gosta de touradas muda para outro canal. Deste modo, deixamos que os pseudo instruídos e os pseudo defensores dos animais ensinem os seus filhos à sua maneira e não os filhos dos outros. Para 2021, de forma incompreensível e lamentável, não está prevista a transmissão de touradas na Rádio e Televisão de Portugal. Será que esta condição não é uma autêntica e pardacenta ditadura cultural? Será que esta conjuntura não deve ser degustada como uma verdadeira desconsideração pela liberdade?

Todos deveríamos usufruir de liberdade para escolher aquilo que gostamos de ver e aquilo que, como cidadãos conhecedores e criteriosos, queremos preservar. Em relação a mim, os movimentos “anti touradas” não têm capacidade para me impor nada, absolutamente nada. Não admito que um qualquer indivíduo desses movimentos me diga aquilo que devo ver na televisão. Não admito que um pseudo erudito qualquer me diga quais são os espectáculos de que devo gostar. Será que estes indivíduos não são uns jograis fundamentalistas?

Infelizmente existe no nosso País um imenso ataque contra os cidadãos que amam as touradas. Há, por parte daqueles que não gostam de touradas, uma triste tentativa ideóloga de estandardizar a cultura Portuguesa, assim como o intuito de forçar o público a criar e saborear unicamente certos modelos de programas televisivos. Os argumentos apresentados pelos movimentos “anti touradas” carecem de imaginação, ou seja, são sempre os mesmos, completamente despropositados e improcedentes. Chamam ignorantes, selvagens, inscientes, sanguinários, irracionais e patetas aos aficionados e apaixonados pelas touradas. Será que há algo mais ignóbil, vergonhoso e desprezível do que existirem indivíduos que não respeitam os gostos dos outros?

Nasci e cresci a ver touradas e capeias. Na realidade, as mesmas nunca influenciaram, de forma negativa, o meu comportamento como cidadão. Quando era criança, na minha querida Aldeia do Bispo, freguesia que pertence ao Concelho do Sabugal, tinha, tal como todos os outros meninos, duas actividades predilectas: jogar futebol e brincar à Capeia Arraiana. Brincar à Capeia Arraiana era extremamente bom e salutar. Belos tempos!

As corridas de touros nunca me transformaram numa pessoa belicosa, impiedosa, empedernida ou impassível perante pessoas ou animais. Sou um cidadão observador e respeitador de todas as regras da sociedade, nunca desobedeci nem acotovelei a legislação, nem nunca tive comportamentos agressivos contra seres humanos ou animais. Esta é a minha postura perante a vida. É com muito orgulho que respiro e amo touradas. A minha filha é uma verdadeira aficionada da festa brava e tenho um gigantesco orgulho nisso. Será que aqueles que pertencem aos movimentos “anti touradas” não se acham no direito de poder preceituar os gostos de cada um? Será que os mesmos não são ideólogos baratos? Será que essa cambada de ignorantes não se julga uma entidade superior?

Os defensores dos animais deviam aparecer em algumas quintas, nas quais os animais de criação passam fome e estão instalados em estruturas precárias de criação, vivendo em completo e constante sofrimento. Nestes casos, os intelectuais do barulho não aparecem, nem organizam qualquer género de petição ou vaga de solidariedade. Boa parte daqueles que pertencem aos movimentos “anti touradas” são autênticos e lamacentos fundamentalistas. Será que os suínos, ovelhas, coelhos, cabras, patos ou galinhas que morrem à fome e vivem em condições insalubres não sofrem? Será que as raposas esfoladas vivas e os patos engordados por um funil para que o seu fígado intumesça e dele se adquira o famoso paté não sofrem?

Os pseudo defensores dos direitos dos animais que laborem nos locais devidos e abandonem a estupidez, o fanatismo e a obtusidade. Será que os cidadãos que compõem os movimentos “anti touradas” não procuram unicamente protagonismo e alguns momentos de “antena”? Será que para os mesmos não existem animais de primeira e animais de segunda? Será que esses movimentos não estão desenhados em telas completamente cendradas, inconsistentes e incongruentes?

Não devemos aceitar a exterminação de determinadas tradições ou infundir certos gostos com o fundamento de que os mesmos são em benefício da sociedade. Na verdade, todos temos a noção de que essas condições em nada interferem com algumas configurações aviltadoras existentes na nossa sociedade, e que somente acalentam os egos de determinados indivíduos que se julgam de uma estirpe mais elevada. Há indivíduos tão egocêntricos que são incapazes de respeitar os desejos e vontades dos outros. Estes movimentos “anti touradas” estão repletos de “artistas” que não querem saber dos animais, mas sim de proveito próprio. Meus caros, o mundo não gira à vossa volta, retractem-se por favor!

As touradas não estão, nem de longe, nem de perto, coligadas aos graves e intensos problemas a que assistimos não só nas escolas, como também em todos os vértices da sociedade. Vemos crianças e jovens a injuriarem e a espancarem os colegas e os professores em formatos de pura crueldade. Contemplamos jovens e adultos a cometerem agressões, violações e assaltos; a consumirem álcool e drogas; e a desprezarem os verdadeiros valores, bem como os valores dos outros. Talvez tenha chegado a altura de os cidadãos serem justos e abandonarem, de uma vez por todas, a hipocrisia. Caso contrário vamos proibir também os desenhos animados porque os mesmos albergam violência, batalhas e mortes; os filmes, nos quais os traços de veemência e barbaridade abundam; os reality shows, uma vez que os mesmos aquartelam linguagem lesiva e comportamentos pouco dignificantes; e os telejornais, pois abordam constantemente desumanidades.

As touradas constituem espectáculos onde a violência e a tortura jamais têm lugar. As transmissões televisivas das touradas nunca proporcionaram imagens susceptíveis de impregnarem desfavoravelmente a formação da personalidade das crianças, dos adolescentes ou até dos adultos. Logo, podemos referir convictamente que as touradas nunca constituíram nenhuma espécie de estímulo à violência.

Apesar da profunda discussão que o tema touradas provoca na sociedade portuguesa, devido principalmente à sua dimensão cultural, sabemos actualmente que o itinerário do desenvolvimento não passa pela “desistência” da festa brava. A escolha da modernidade terá que continuar a agasalhar texturas tauromáquicas, uma vez que as mesmas aquartelam contextos éticos bastante elevados. A exposição pública de touradas nunca provocou impactos emocionais contraproducentes em quem assiste. Será que as touradas não representam, em larga escala, a alma de um País? Será que a “alma” não expõe a configuração mais nobre, distinta, perdurável, ética, intensa e penetrante do psiquismo humano?

A tourada pode ser definida como um espectáculo de massas onde se salientam os trajes e o talento dos protagonistas; a pigmentação, a cintilação e o calor dos aficionados; a formosura e o treino dos cavalos; a imponência dos touros; as estéticas e harmoniosas aclamações; a agradável e colorida emoção; o perfume dos movimentos; a linda sinuosidade dos desfiles; a inexistência de violência; e a sumptuosidade da música. Na verdade, os aficionados da festa brava, os toureiros e os forcados idolatram e respeitam os touros como ninguém.

Os pais que levam as crianças e os adolescentes às touradas acabam por estar a partilhar com as mesmas um espectáculo extraordinário que lhes proporcionará uma benévola coadjuvação para a sua educação e formação. Será que não é triste que uma minúscula minoria, microscópica mesmo, pretenda prescrever as regras da sociedade e transformar a nossa própria cultura?

O recente e desengraçado puritanismo perfilha a troca dos direitos humanos pelos direitos dos animais e dos vegetais. É necessário estar sempre de pé atrás com os puristas contemporâneos, uma vez que os puristas sempre foram, ao longo da história, inimigos dos seres humanos. O puritano pode ser definido como um fanático que subjuga toda a realidade, em moldes irracionais e infecundos, à vontade da sua própria concepção. Será que um puritano, se a sua mundividência fanática o aconselhar, não confunde, por exemplo, a condição humana com a condição mineral? Será que o puritano moderno não é um cidadão urbano que perdeu a ligação e a convivência com a “cláusula” humana? Será que o puritano não pode ser contemplado como um indivíduo que se distanciou da realidade concreta, corpórea e objectiva? Será que os puritanos que fazem parte dos movimentos “anti touradas” sabem que sem touradas, os touros não tinham razão de existir? Será que dentro de um puritano não habita um pardacento fascista? Será que os puristas não desfilam num mundo surreal? Será que os pseudo defensores dos animais sabem em que contextos e condições são criados os animais para consumo humano? Será que os mesmos têm conhecimento de quantas espécies endémicas estão em risco de extinção em Portugal? Será que essa cambada de iluminados sabe quais são os resultados e as consequências provenientes do consumo diário de toneladas de rações animais? Será que os mesmos não têm mais nada que fazer do que tentar impedir que os outros gostem daquilo que eles não gostam?

Sugiro aos pseudo defensores dos animais que acabem com a pesca desportiva; as corridas de cavalos; as demonstrações equestres; a columbofilia; os circos; os aquários; as amêijoas à “Bulhão Pato”; a aquicultura; a sardinha assada no pão; a cavala em conserva; e o chouriço fumado.

A tourada é uma demonstração de devoção e adoração, assim como uma homenagem à força, resistência e robustez do animal. As corridas de toiros devem ser saboreadas e desenhadas como autênticos momentos de arte. Imensos turistas assistem às touradas, saindo das mesmas como verdadeiros aficionados. O resultado final acaba por ser uma “publicidade” bastante favorável em relação ao nosso País. Viva a festa brava!

 

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda

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