OPINIÃO

Por Alexandre Gonçalves*

 

O espectáculo tauromáquico desfrutou de uma origem comum em toda a Península Ibérica, passando por profundas metamorfoses até aos nossos dias. Ganhou em arte, carácter, suavidade, conservando também enormes doses de “ónus” social, religioso e cultural. As touradas não só conferem venerabilidade e dignidade ao toiro, como também a todos aqueles que se envolvem nas mesmas, quer sejam os que concretizam, presenciam ou permitem. Será que a tourada pode ser resumida unicamente ao toiro? Será que a formosura dos cavalos não revela esplendor, lealdade, solidariedade, trabalho e inteligência? Será que a coragem dos forcados não exterioriza entreajuda, arte e camaradagem? Será que a pega não é algo sublime e de rara beleza? Será que a música, os aplausos, a pigmentação e a emoção que embrulham a festa brava não são sinónimos de cultura e de existência?

Os toiros vivem cerca de quatro anos em completa liberdade, alimentando-se de faustosas pastagens naturais, enquanto a grande maioria dos animais que consumimos vivem poucos meses e circunscritos a estábulos com espaços físicos exíguos, alimentados com rações e produtos químicos, sendo posteriormente mortos em condições insalutíferas. O toiro é um animal para o qual não se pode olhar de modo insensível, indiferente e fleumático. O toiro, em virtude da estupefacção, veneração, afeição, intrepidez, excelência morfológica, envolve fantasia e idealização. Tem mais importância o artista que é capaz de encher as praças, o empresário que arquitecta corridas com elevado interesse, o ganadeiro que consegue despertar e estimular curiosidade e emoção, e o público que aplaude com devoção.

As herdades, nas quais desfilam os toiros acabam por proteger muitas outras espécies e caracterizam-se por possuir fragrâncias e fisionomias perfeitamente impressionantes. Com a extinção das touradas, essas áreas desapareceriam, pois o negócio da construção civil iria “perfilhá-las”. Há efectivamente uma economia que permite, alimentando-se simultaneamente da mesma, que a festa brava perdure como são disso exemplo as coudelarias, as empresas que confeccionam os trajes, as tipografias, os empresários, a hotelaria, etc.

A cultura é um género de teia que reúne as crenças, práticas, cânones, doutrinas simbólicas, as configurações de existência, os paradigmas colectivos de meditar, a perspectiva diária da sociedade, as obras palpáveis e incorpóreas, e os organismos e disposições de certos grupos sociais. Os cidadãos devem declinar as conspecções elitistas da cultura, uma vez que elas são presunçosas e aplaudem um único arquétipo de cultura. Logo, a cultura acaba por ser parte integrante da realidade social.

Adjacentes às corridas de toiros estão os milhares de postos de trabalho que as mesmas aconchegam, assim como a indústria turística. A interdição das corridas de toiros em Portugal seria um verdadeiro cataclismo que conduziria milhares de pessoas para o desemprego, bem como aniquilaria a vivacidade económica de diversos concelhos. As corridas de toiros, encaixadas no toureio “ecuménico”, acabam por ser o motor de inúmeras economias locais. Por exemplo, no concelho do Sabugal, onde a maioria da população respira capeias e touradas, aquilo que verdadeiramente move as pessoas no mês de Agosto são precisamente as capeias e as touradas, e não propriamente outros tipos de festa.

Os amantes dos toiros e das touradas hospedam arrumações harmoniosas, assim como sentimentos dignos e respeitáveis. Contudo, são atacados por alguns núcleos que se banham em erudição barata e que perfilharam não só a imposição universalista dos “paladares”, como também o desacordo injustificado em relação às manifestações de gosto popular, especificamente nas suas configurações mais palpáveis e “instrumentais”.

Deparamo-nos todos os dias com notícias sobre a extinção de espécies animais e aqueles que pertencem aos movimentos “anti touradas” pretendem extinguir o toiro bravo. Não será isto um autêntico e pardacento paradoxo? Infelizmente, ninguém que pertence a esses grupos consegue testemunhar o efectivo respeito e carinho que o homem agasalha por o toiro. Os verdadeiros aficionados adoram e respeitam o toiro. Muitos daqueles que aparecem nas praças de toiros e vibram com uma grandiosa corrida visitam ganadarias, assistem a palestras e compram jornais, revistas e livros relacionados com essa temática, não conseguindo impedir, aquando da comparência de um toiro, a exteriorização dos feedbacks afectivos primários e epidérmicos. O espectáculo perderia caso não se tivesse que eleger o triunfador e o vencido, que por sinal pode ser o toiro, sempre que o mesmo estiver por cima dos toureiros. O sucesso e o malogro obedecem a preceitos e técnicas bastante peculiares. A tauromaquia é arte no seu estado mais puro, não a presenteiem com outros rótulos.

A crueldade começa e acaba, naqueles iluminados que pretendem equiparar a vida de um homem com a de um animal. Será que não existem alguns traços de hipocrisia e tartufice, oriundos de argumentos completamente despovoados, naqueles que estão contra as touradas? Será que os indivíduos que fazem parte dos movimentos “anti touradas” não pensam que são os únicos neste planeta que abarcam todo o conhecimento, discernimento e sapiência? Será que a inflexibilidade que demonstram não os torna arrogantes e pretensiosos? Será que empregam a civilidade nas suas recensões? Será que estas manifestações não representam demasiada ociosidade mental?

Há milhões de pessoas em Portugal que amam as touradas, pois as bancadas estão sempre repletas de indivíduos que não são robotizados, imbecis, idiotas ou alienados, nem que nunca perderam a noção dos procedimentos correctos e incorrectos ou escrupulosos e inescrupulosos. As touradas não aconchegam crueldade e covardia, mas sim as chancelas do respeito, da cultura, da tradição e da arte. A tauromaquia jamais pode ser considerada como uma actividade de culto do sangue e da violência sobre os animais. Desafortunadamente, ainda há cidadãos que têm infinitas certezas e que parecem conhecer tudo e todos. Será que o seu nível cultural não é proporcional ao seu sentido democrático e condescendente? Será que os mesmos não representam o fascismo da contemporaneidade?

A prática do toureio a cavalo é considerada um fidedigno presságio de nobreza e de magnanimidade, obedecendo a princípios peculiares de integridade, seriedade e cavalheirismo. O fenómeno tauromáquico não passa despercebido a nenhum grupo social com efectiva influência na vida local. O dinamismo interno do campo tauromáquico acaba por ser a consequência da transfiguração duradoura da arte de lidar o toiro, tendo em conta as pelejas internas pela imposição de modernas técnicas e regulamentos, bem como os concernentes intérpretes e admiradores, e o resultado das transmudações sobrevindas na sinuosidade de um degrau mais universal.

Na arte de pegar toiros, a amizade antevê por indissociabilidade, a fidelidade, companheirismo, benevolência, sentimento de pertença e espírito de união. O forcado caminha na arena em direcção ao assustador toiro, sem outro amparo que não seja a confiança na sua desenvoltura. Os forcados são homens valentes que dominam o medo, preservando o brilho necessário para contemplar, raciocinar e materializar a pega dentro dos cânones e estatutos instituídos. A pega do toiro é uma arte que se fundamenta numa técnica explícita. Pegar toiros tem forçosamente que ser considerado um talento e uma técnica. Se essa técnica não existisse, dificilmente o homem sairia vitorioso do choque com o toiro. O forcado é valoroso pela sua imperturbabilidade e sangue frio, assim como pela sua particularidade artística. Não precisa de inusitada resistência ou robustez, mas sim de inúmeras qualidades psicológicas. Logo, a técnica da pega é tão intrincada como a técnica de qualquer outra feição de toureio.

O caminhar na praça, a indumentária apertada, o tempo de espera, a firmeza do corpo, a distância, a convocação do toiro, o carregar para provocar a saída do toiro, o modo de recuar, o cair-lhe na cabeça para se fechar e o aguentar os derrotes do toiro são requisitos que vão acabar por ditar o sucesso ou insucesso da pega. Somente desta maneira se consegue esculpir a dissemelhança entre a bravura e coragem humana, e a beleza toureira. A harmonia dos comportamentos e das movimentações são condições basilares para o êxito na praça. Salientar que o forcado enfrenta o toiro por mera paixão e romantismo. Será que os forcados não são uma autêntica e importante academia de probidades? Vivam as tertúlias tauromáquicas! Vivam as corridas de toiros! Viva a Capeia Arraiana! Viva a tradição! Vivam os milhões de aficionados! Vivam os roteiros tauromáquicos!

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda 

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