A vida depois da invasão da Quissanga, na província de Cabo Delgado (Moçambique), em 2020, é como que um olhar para o futuro dos deslocados de Palma: incerto, repleto de saudade e de revolta.
Dpois de meses de ataques constantes dos insurgentes, apoiados pelo movimento terrorista Estado Islâmico, que tiveram como ponto alto o final de abril, foi quando a sede de distrito foi mesmo ocupada.
O campo “25 de Junho”, foi construído para acolher 3.000 famílias, mas ultrapassou largamente a capacidade. Agora dá abrigo a 5.872 agregados familiares – 23.589 pessoas contabilizadas -, de acordo com a informação disponibilizada pelos responsáveis pela gestão deste espaço para deslocados.
No hemisfério sul, o inverno está a chegar e com ele a chuva, por isso, é preciso substituir lonas e reforçar a estruturas das tendas, já que o solo do “25 de Junho” não absorve a água, nascendo poças lamacentas atrativas para os mosquitos que transmitem a malária, a doença mais presente no campo.
O “25 de Junho” é um “campo de acomodação” temporário. As comunidades vão, entretanto, ser transferidas para outras áreas de Metuge onde as autoridades esperam integrar os denominados campos de realojados.
Aqui já há jardins construídos — havia mandioca e melancia plantadas quase por todo o lado -, há alpendres, latrinas e casas de banho, como descreveu Muamade Azir, de 72 anos, natural da aldeia de Quilite, em Quissanga, de onde fugiu com a família, “que é quase uma comunidade”, com 30 pessoas.
Apesar do trabalho constante das organizações não-governamentais nestes campos, o número de pessoas deslocadas em Cabo Delgado não para de aumentar.
Para conseguir dar esta resposta até ao fim de 2021, o Programa Alimentar Mundial precisa de um total de 82,4 milhões de dólares ou cerca de 10 milhões de dólares por mês (total 69,24 milhões de euros ou 8,4 milhões de euros por mês).
As autoridades moçambicanas retomaram o controlo da vila de Palma, atacada a 24 de março por grupos rebeldes, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.
Os grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista ‘ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes e 700 mil deslocados.
O ataque a Palma levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do projeto de gás em construção na península de Afungi, com início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

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