Uma revista online australiana divulgou uma lista de altos responsáveis do país que terão beneficiado com o encobrimento do caso de espionagem a Timor-Leste quando os dois países estavam a negociar sobre o Mar de Timor.

A lista, divulgada pela revista Crikey, inclui o ex-primeiro-ministro australiano John Howard, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Alexander Downer, diplomatas e responsáveis dos setores judiciais e da secreta.
A revista inclui na lista 11 indivíduos e a petrolífera Woodside, “o maior beneficiário de todo o escândalo”, tendo empregue “funcionários do Departamento de Negócios Estrangeiros e Comércio” e o próprio Alexander Downer.
“Quanto mais informações surgem não apenas sobre o escândalo, mas sobre a conduta da política externa regional da Austrália, mais claro se torna que os interesses comerciais da Woodside e de outras empresas de recursos têm sido um fator determinante nas políticas externas e de segurança da Austrália”, refere a revista.
O artigo foi publicado para coincidir com o regresso ao tribunal, esta semana, de um ex-agente dos serviços secretos australianos, a ‘Testemunha K’ e ao seu advogado, Bernard Collaery, que foram acusados de conspiração pelo Ministério Público daquele país e que estão a ser julgados em Camberra.
Os acusados, que regressam na quinta-feira ao tribunal, enfrentam uma pena máxima de dois anos de prisão, se forem considerados culpados. O Governo tem defendido que dada a natureza do conteúdo do caso o que ocorre no tribunal deve ser ‘fechado’, algo contestado pela defesa e por críticos da decisão de acusar os dois homens.
Em causa está uma denúncia por parte da ‘Testemunha K’, que divulgou um esquema de escutas montado em 2004 pelos serviços secretos australianos em escritórios do Governo timorense, em Díli.
De acordo com os relatos, através das escutas, o Governo australiano obteve informações que permitiriam favorecer as intenções australianas nas negociações com Timor-Leste da fronteira marítima e pelo controlo da zona Greater Sunrise, uma rica reserva de petróleo e gás.
“Sob o pretexto da segurança nacional, os procuradores querem conduzir o julgamento fora da vista do público para evitar o constrangimento – e talvez pior – de várias pessoas, enquanto os advogados de K e Collaery argumentam que a acusação deve ser conduzida em audiência pública”, refere o artigo, notando que a decisão do tribunal sobre esta questão deve ser conhecida na quinta-feira.
Entre os 12 que “beneficiariam por manter o segredo” do processo estão Alexander Downer, que “ordenou a operação da ASIS contra o Governo timorense, retirando recursos da luta contra o terrorismo na Indonésia para o fazer” e que, posteriormente, “conseguiu um emprego com o principal beneficiário das reservas submarinas de petróleo e gás de Timor-Leste, a petrolífera Woodside”.
Abrir o processo ao público, explica a revista, ajudaria a “esclarecer a decisão da Downer usar a ASIS, [a secreta australiana] para o benefício comercial de uma empresa”.
Howard (Liberais) é outro dos beneficiários, tendo autorizado a decisão de Downer de “redirecionar recursos da luta contra o terrorismo para cuidar do interesse comercial da Woodside” e que, como o seu ministro “nunca foi responsabilizado pelas suas ações, ou pela sua política mais ampla de intimidar Timor-Leste relativamente aos seus recursos energéticos”.
Outra das beneficiárias é a também ex-chefe do Governo (Trabalhista) que “respondeu de forma agressiva à tentativa do então primeiro-ministro Xanana Gusmão de resolver a questão de forma confidencial em 2012” tendo depois iniciado as investigações a K e a Collaery.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Bob Carr, na altura da denúncia timorense, o procurador-geral Mark Dreifys, que aprovou escutas à Testemunha K e a Bernard Collaery e David Irvine, responsável da ASIS na altura, estão igualmente na lista da Crikey.
Na lista estão ainda Nick Warner, atual diretor-geral dos serviços secretos e chefe da ASIS que bloqueou a devolução do passaporte à Testemunha K, Sarah McNaughton, diretora da procuradoria Pública, o atual procurador-geral Christian Porter, que ordenou a acusação aos dois homens.
George Brandis, ex-procurador-geral que ordenou rusgas a K e ao escritório e casa de Collaery, tendo “ameaçado Collaery no parlamento”, e Margaret Twomey, embaixadora da Austrália em 2004 no período das escutas a Timor-Leste, fazem também parte da lista.

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