Concentraram-se à porta da fábrica, ao frio, para exigirem os seus diretos. O atraso no pagamento das remunerações, desde dezembro, afeta cerca de 70 trabalhadores de uma empresa de calçado, que garantem já não acreditar na viabilidade destas duas empresas que funcionam na mesma estrutura, em S. João da Madeira.

“A nossa patroa diz-nos que temos trabalho, ele não aparece, não recebemos ordenado desde dezembro e nem a carta para o fundo desemprego”, explicou à nossa reportagem Otília Pinto, uma das trabalhadoras que tentou abordar a proprietária responsável por duas empresas de calçado «Missão Sem Rival» e «Desempenho de Topo», que laboram no mesmo edifício, na zona Industrial em S. João da Madeira, para lhe pedir os ordenados que estão em atraso e a carta para que possa começar a receber o fundo de desemprego.
Estes dias têm sido muito complicados para os cerca de 70 trabalhadores, que se têm concentrado à porta da empresa de calçado, para exigirem os seus direitos e para chamarem à atenção da empresária para a situação de alguns trabalhadores, “que já não têm o que comer”, e mostram-se muito preocupados com o futuro, pois assumem que nas suas idades já não é fácil arranjar emprego. “A patroa promete que nos paga. Vimos para cá com esperança de recebermos. Têm sido promessas, mentiras atrás de mentira e tudo isto é muito desgastante e revoltante, pois temos as nossas coisas para pagar”, assumindo não entender a razão pela qual a empresária não entrega aos trabalhadores a carta para o fundo de desemprego.
Os trabalhadores começaram a perceber que as coisas não estariam muito bem na empresa, uma vez que, em Outubro, já sentiram atrasos nos pagamentos dos salários. Em dezembro, trabalharam só uma semana e, desde essa altura, que não receberam mais dinheiro algum, concluiu Otília Pinto.
Os funcionários garantem já ter perdido a conta às vezes que pediram explicações. “Já percebemos que não vamos voltar a trabalhar aqui, até porque já tiraram as máquinas e a empresa está sem luz e sem água. Queremos só aquilo que é nosso”. Para os trabalhadores existe um “outro e grave” problema. “Os documentos enviados para a Segurança Social têm datas erradas e, por isso, os documentos não são válidos”, receando que o processo tenha mesmo que seguir para tribunal.
Otília Pinto diz não entender que, perante uma situação destas, o ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho e o Sindicato de Calçado “não conseguem encerrar a empresa”.
Emília Silva é outra trabalhadora. Está na empresa há quatro anos. Abalada com a situação, assume que a fábrica “sempre teve altos e baixos”, mas “recebemos sempre o ordenado”. Diz também não entender “todo o mistério” para que a empresária não disponibilize a carta para o Fundo de Desemprego. “Ninguém vive do ar” e, pelo menos, “íamos recebendo da Segurança Social”, pois “voltar a trabalhar na empresa não quero mais. Pretendo seguir em frente mas com esta situação resolvida”.
Se por um lado existe “quem acredite que a senhora tem vontade de pagar os ordenados em falta”, a maioria garante que “isso não vai acontecer”.
Fernanda Nogueira, coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores do Calçado, afirma que esta força sindical está “atenta” e garante que estão a acompanhar a situação, “mas ainda não conseguimos falar com a empresária, pois não aparece na empresa”. Esta responsável garante ainda que “a empresa prestou falsas declarações à Segurança Social”, entendendo que perante esta situação poderá ser necessário recorrer para a via judicial.
Em comunicado enviado às redações, o deputado Moisés Ferreira, do Bloco de Esquerda, reforça que a falta de salários “está a penalizar fortemente os trabalhadores e suas famílias”, sendo já um grave problema social que necessita de uma “rápida solução para estancar as repercussões que estão associadas à falta de salários”. Recorda que estas situações “exigem uma intervenção rápida e urgente por parte das autoridades inspetivas”, de forma a garantir os salários e os direitos dos trabalhadores. “É ainda demonstrativa da necessidade de rever a legislação laboral”, reforça.
Perante esta situação, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda questionou o Governo através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, ontem, dia 27. Esta força política quer saber, entre várias questões, se o Governo tem conhecimento desta situação, o número de vezes que a Autoridade para as Condições de Trabalho fez acções inspectivas nestas empresas e as suas conclusões.
A nossa reportagem tentou, sem sucesso, ouvir a empresária responsável pelas duas empresas.

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