O último administrador da corticeira Robcork, que a CGD mandou para liquidação, acusa o banco público de não ter apoiado a empresa quando esta começou a laborar, em 2015. “Não quis arriscar mais do que tinha arriscado até ali”, lamentou João Posser de Andrade.

O último administrador da corticeira Robcork, que a CGD mandou para liquidação, acusa o banco público de não ter apoiado a empresa quando esta começou a laborar, em 2015. “Não quis arriscar mais do que tinha arriscado até ali”, lamentou João Posser de Andrade.
Durante três anos, entre 5 de Março de 2015, quando a fábrica da Robcork foi inaugurada, em Portalegre, pelo antigo ministro Poiares Maduro, e 14 de Março passado, d
ia em que o Negócios publicou um trabalho intitulado “Estado empata 12 milhões em empresa que abriu e fechou”, nunca os responsáveis da empresa e os credores se pronunciaram publicamente sobre a falência desta corticeira.Os credores da Robcork, que teve seis anos para abrir e pouco tempo para fechar, decidiram mandar a empresa para liquidação a 12 de Janeiro deste ano, em assembleia realizada no Tribunal da Comarca de Portalegre.Isto depois de terem chumbado, seis meses antes, o plano de recuperação da empresa em sede de Processo Especial de Revitalização (PER), apresentado no final de 2016.
A Caixa Geral de Depósitos (CGD), maior credor com 8,1 milhões dos 12,9 milhões de euros de créditos da Robcork, não aceitou a proposta de viabilização assinada por um grupo inglês.
Além do banco estatal, são credores outras entidades estatais, como o IAPMEI e o Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) – dois milhões de euros cada –, a Segurança Social com 90 mil euros e o Fisco com 40 mil. Feitas as contas, o Estado detém cerca de 95% dos créditos validados na lista de credores apresentada há um ano em tribunal.
Esta semana, em declarações editadas pela Rádio Portalegre, o último administrador da corticeira Robcork, João Posser de Andrade, acusou a CGD de ter “cortado as pernas” à empresa por não a ter apoiado, em 2015, quando era necessário dinheiro para comprar matéria-prima para começar a laborar.
“A CGD não quis arriscar mais do que tinha arriscado até ali”, criticou o principal accionista da Robcork, lamentando que “a CGD nunca tenha lido o Plano Especial de Revitalização da empresa” e que “nunca se tenha deslocado a Portalegre para uma conversa com a administração”.
Para Posser de Andrade, o banco estatal manifestou “uma total indiferença pelo sector, pela cidade e pelos empregos”, e mostrou-se apreensivo por, apesar de garantir que existem grupos internacionais interessados na Robcork, esta venha a ser vendido peça a peça, o que “seria uma desgraça”.

PSD considera que “a actuação da CGD suscita dúvidas e interrogações”
Entretanto, dois deputados do PSD consideram que a actuação da CGD na corticeira “suscita dúvidas e interrogações”, pelo que exigem do Governo esclarecimentos sobre a forma como o banco público “conduziu o processo”.
Numa pergunta entregue a 15 de Março na Assembleia da República, os deputados Cristovão Crespo e José de Matos Rosa aludem a uma notícia publicada no Negócios no dia anterior, intitulada “Estado empata 12 milhões em empresa que abriu e fechou”, para questionarem o Governo sobre a actuação da CGD na liquidação da corticeira Robcork, de Portalegre.
“A actuação da Caixa Geral de Depósitos, principal financiador do projecto, suscita dúvidas e interrogações na forma como conduziu o processo e que não se coadunam com o declarado objectivo governamental”, que criou “uma Unidade de Missão para a Valorização do interior, que visaria promover medidas de desenvolvimento do território do interior”, consideram Cristovão Crespo e José de Matos Rosa.
“Não se percebe como é possível que uma empresa, após concluído o processo de investimento tecnológico, entre directamente em liquidação”, interrogam-se.
“Tem o Governo conhecimento da situação identificada?” é a primeira de uma série de questões dirigidas ao ministro-adjunto e aos das Finanças e da Economia.
“Partilha o Governo a posição da Caixa Geral de Depósitos de ‘mandar para a liquidação’ a Robcork, quando foram apresentadas em vários momentos propostas de viabilização da empresa?”, questionam também os dois deputados sociais-democratas.
No texto entregue no Parlamento, Cristovão Crespo e José de Matos Rosa exigem ainda saber “que iniciativas e medidas irá o Governo adoptar e desenvolver para corrigir a situação descrita”, a qual, garante, “configura um grave prejuízo para a economia local e nacional”.
E “dado o impacto das decisões tomadas”, os deputados signatários desejam “informação circunstanciada do processo que levou à liquidação da empresa”.
Instalada na antiga unidade da multinacional Johnson Controls, que fechou as portas em 2007, arrastando para o desemprego mais de 200 trabalhadores, a Robcork laborou muito pouco tempo, com cerca de 40 trabalhadores, que “herdaram” da centenária Robinson, que faliu em 2009, ano em que foi publicamente anunciado o projecto da nova corticeira, onde foram investidos cerca de 15 milhões de euros. A Robcork está agora em processo de liquidação.

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