Responsáveis estão a estudar uma forma de incluir na obra o frontispício do edifício que foi sede do histórico grupo de teatro.

O hotel que está a ser construído na Rua de Gonçalo Cristóvão, no Porto, deverá integrar a fachada do edifício que albergou a sede do “Grupo dos Modestos”, histórica companhia teatral da cidade. O imóvel foi desmantelado, mas o JN sabe que a empresa responsável pela futura unidade hoteleira está a estudar a melhor forma de integrar o frontispício na nova construção. Por isso, antes de removidas, as pedras da antiga sede do grupo teatral foram numeradas, de forma a possibilitar a sua posterior recolocação. Antes da demolição, o imóvel esteve cerca de 30 anos votado ao abandono.
O futuro hotel terá 123 quartos e prevê-se que demore 22 meses a construir. A fachada dos “Modestos” estará “no interior, mas será visível por fora, através de uma vidraça” Contudo, “a solução definitiva ainda não foi acertada”, apurou o JN.
O “Grupo dos Modestos” está nas páginas da história da cidade. Foi escola de muitos atores de teatro, como é o caso de António Reis, que também passou pela direção do grupo teatral. “Foi lá que me estreei, em 1964. Depois fui ficando por lá e éramos todos uma família”, contou o ator. E a família do grupo cresceu muito, antes de desaparecer de cena.

Fechou portas nos anos 80
A 25 de setembro de 1902 um conjunto de rapazes, amigos da arte, representou “Os sinos de Bonneville”, numa loja de um prédio na Rua do Almada. Foi o início. Em 1908, já mais amadurecido, este que foi considerado um dos mais importantes grupos de teatro do século XX, fixou a sua sede na Rua de Gonçalo Cristóvão. E aí viveu até fechar portas, no início dos anos 80. O edifício, que pertenceu à Associação Portuense de Socorros Mútuos das Classes Laboriosas, permaneceu devoluto, desde então. Até ser comprado para ali ser construído um hotel.
“Tendo em conta que se trata de um espaço que não era destinado à habitação, vejo com bons olhos que ali se instale uma unidade hoteleira que, por respeito pela história, não vai apagar da memória um monumento que ali existia. De realçar que não tinham a obrigação de manter o pórtico, por isso é de valorizar”, sublinhou ao JN António Fonseca, presidente da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto.
Entre aqueles que frequentaram o edifício dos “Modestos” há agora alguma curiosidade sobre a obra em curso. José Cavadas, “orgulhosamente sócio número 17” é um dos que ficam na expectativa. “Foi uma pena ter acabado, mas vamos ver o que nasce dali”, sublinhou.

O lema “Arte, caridade e beneficência”

O “Grupo dos Modestos” sempre foi acompanhado pelo lema “Arte, caridade e beneficência”. A sua obra fez jus às três palavras. Os Bombeiros Voluntários do Porto e de Espinho foram alguns dos que mais foram ajudados, por exemplo, com a angariação de dinheiro para a aquisição de carros. Os pobres eram a preocupação. Em 1910, há registos de espetáculos cujas receitas reverteram a favor de 500 necessitados de Santo Ildefonso, de Ponte de Lima, de Espinho, e de Vila do Conde. O grupo sempre se manteve afastado da política, tentando chegar assim aos que mais precisassem, através da sua arte, o teatro.

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