OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Quando, em 1883, Pierre de Coubertin (1863-1937), pela primeira vez, visitou, Inglaterra, percebeu que a dinâmica popular e democrática dos jogos competitivos, que encontravam as condições ideais de desenvolvimento no industrialismo que despontava, anunciava um novo paradigma no âmbito das atividades atléticas de tipo competitivo, para além das que já aconteciam determinadas pelas circunstâncias e hábitos culturais, localmente estabelecidos.
E, porque era um helenista de gabarito que conhecia o carácter internacionalista dos Jogos que se praticavam na antiga Hélade, em 25 de Novembro de 1892, na velha Sorbonne, aquando das comemorações do quinto aniversário da Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques (USFSA) da qual era secretário, proferiu um discurso, hoje conhecido como o “Manifesto Olímpico”, em que anunciou a necessidade de voltarem a ser organizados os Jogos Olímpicos, desta feita, da era moderna.
Tratou-se do primeiro sinal de uma rutura epistemológica que estava a acontecer relativamente aos “sports” das aristocracias e das burguesias abastadas dos vários países europeus, bem como relativamente às escolas de ginástica promovidas pelos ginasiarcas do século XIX que se organizavam no âmbito da educação física.
Posteriormente, de 17 a 24 de Junho de 1894, igualmente na Sorbonne e sob os auspícios da USFSA, realizou-se o Primeiro Congresso Olímpico onde foi institucionalizado o Comité Internacional dos Jogos Olímpicos que, posteriormente, viria a designar-se por Comité Olímpico Internacional (COI). O que se pretendia, à imagem e semelhança dos “sports” praticados localmente pelas elites sociais e económicas, era conservar o carácter cavalheiresco do novo desporto que devia promover a educação das populações tendo em conta o papel admirável que lhe atribuíam os mestres gregos. Finalmente, com este espírito, de 6 a 15 de Abril de 1896, realizou-se na cidade de Atenas a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna que decorreu com assinalável sucesso não só do ponto de vista desportivo como social.
Quer dizer, à semelhança de Prometeu, que num desafio aos deuses do Olimpo lhes roubou o fogo a fim de o oferecer aos homens, assim também Coubertin roubou os “sports” às elites dos países europeus para os oferecer ao povo a fim de que este os pudesse praticar com um espírito cavalheiresco através de uma competição justa, nobre e leal, desenvolvida segundo um padrão estandardizado à escala mundial. E o desporto, enquanto tipo ideal, começou a ser desenvolvido na lógica de uma cadeia de princípios e valores entre meios e fins que consubstancialmente estruturaram e animaram o Olimpismo moderno tendo como principais ideias de partida: (1º) Os valores do atleticismo dos gregos antigos; (2º) A pedagogia não diretiva e da responsabilidade pessoal de Thomas Arnold (1795-1842) e das escolas públicas inglesas; (3º) A dinâmica dos valores da família, da defesa da propriedade, da paz social, da economia e da segurança no trabalho de Fréderic Le Play (1806-1882); (4º) A superação na via da transcendência do “citius, fortius , altius” do Frade Didon (1840-1900); (5º) A estética e o internacionalismo imperial inglês de John Ruskin (1819-1900); (6º) A conceção filosófica relativamente aos problemas do meio ambiente, da raça e do momento histórico, bem como das virtualidades da educação inglesa equacionados por Hippolite Taine (1828-1893) no quadro da dialética liberdade x responsabilidade; (7º) O risco de degenerescência da democracia em direção a uma igualdade castradora da liberdade promovida por um jacobinismo centralizador para o qual Alexis de Tocqueville (1805-1859) alertava.
Hoje, a generalidade dos protagonistas do mundo do desporto, incluindo dirigentes de Comités Olímpicos Nacionais (CONs) por esse mundo fora, sem nunca ter lido e estudado convenientemente a obra, na maior das ignorâncias, afirma ser Coubertin uma figura do século XIX com um pensamento desfasado ao século XXI. Todavia, o pensamento de Coubertin está bem atual pelo que os seus princípios e valores deviam continuar a orientar o desenvolvimento do desporto que, infelizmente, corroído pelo poder excessivo do dinheiro, se encontra num processo de degeneração moral a evoluir vertiginosamente do estádio do atleticismo grego para o circo romano da selvageria, numa confrangedora hipocrisia política em que o exercício do poder se mistura com a ganância pelo dinheiro num caldo de arrogância, prepotência e incompetência a funcionar numa lógica neomercantilista. Uma lógica em que o poder político estatal se está, cada vez mais, a apropriar do destino do Movimento Olímpico nos mais diversos países do Mundo. E os seus protagonistas, entre atletas, técnicos e dirigentes, do ensino ao alto rendimento, na maior das hipocrisias, animam os discursos oficiais cheios de frases politicamente corretas, enquanto desenvolvem uma práxis centrada no individualismo egoísta e na descrença de qualquer tipo de ordem moral que transcenda os respetivos interesses pessoais. Parafraseando Charles Taylor direi que se está perante um processo de desencantamento dos valores do olimpismo que deviam estar consubstanciados na prática, na gestão e na política do desporto e de todos os desportos através de programas de educação desportiva promotores de cultura desportiva.
Entre nós, infelizmente, como tivemos a oportunidade de assistir no último clássico, fomos obrigados a ver um atleta, quando o jogo acabou, envolvido na mais profunda boçalidade ao recusar o aperto de mão a um adversário para, depois, num vergonhoso olhar de ódio, cuspir para o chão, numa reles demonstração de desprezo pelo adversário. E tudo aconteceu, quer em direto, quer em diferido, perante a indiferença e posterior silêncio dos técnicos, dos dirigentes e dos políticos que, no centro operacional, na linha intermédia ou no vértice estratégico, dirigem o desporto nacional.
Dizem que o desporto é uma escola de valores. O COI, a fim de facilitar, até reduziu os valores fundamentais do Olimpismo a três: a excelência, o respeito e a amizade. Mas mesmo perante esta visão minimalista dos valores olímpicos o modelo de desenvolvimento do desporto não está a ser capaz de a transmitir aos jovens praticantes. Por isso, pergunta-se aos nossos olímpicos dirigentes se vale a pena andarem a discutir os problemas do “mach fixing”, da transsexualidade, do VAR, do racismo, da violência e outros como o exagerado apetite pelo dinheiro dos contribuintes, se, depois, um atleta chega ao mais alto nível da competição desportiva e não sabe que, em quaisquer circunstâncias, entre a derrota e a vitória, tem de saber, pelo menos, respeitar o adversário.
É necessário e urgente resolver o estado de insolvência moral e financeira em que o desporto se encontra. Mas note-se que, enquanto os problemas ético-morais não começarem a ser resolvidos, não vale a pena atirar com mais dinheiro para cima dos problemas que foram precisamente criados por haver dinheiro a mais gasto nos sítios errados. Se a opção for esta o mais certo é ficar-se sem o dinheiro e com mais e maiores problemas.
É necessário ir às causas primeiras do estado de degradação ético-moral em que o desporto se encontra. E a causa primeira da degradação ético-moral em que o desporto se encontra está no sistema educativo e na desadequação da conceção superestrutural da disciplina de educação física que ainda funciona na lógica do pensamento de Georges Demeny (1850-1917) expresso em vários livros entre eles “Les Bases Scientifiques de l’Éducation Physique” publicado em princípios do século passado.
Tudo o que está a acontecer é a consequência de políticas pública definidas na maior das irresponsabilidades pelos governos do regime e catalisadas por um silêncio confrangedor de professores, técnico e dirigentes, bem como pela generalidade das organizações desportivas da base ao topo da orgânica do livre associativismo desportivo e de outras que deviam ter uma posição acerca do assunto, mas primam pelo silêncio.
Não vale a pena gastar nem que seja um cêntimo a mais no desporto se não se restruturar de alto abaixo a questão da disciplina de educação física dos currículos dos ensinos básico e secundário.
O que é necessário é voltar às origens, isto é, aos valores eternos do desporto consubstanciados no espírito olímpico tal como Pierre de Coubertin recomendou, em 1894, aquando da realização do 1º Congresso Olímpico. Disse ele: “Importa, antes de tudo, conservar no desporto o caráter nobre e cavalheiresco que o distinguia no passado a fim de que ele possa continuar a jogar eficazmente na educação das populações modernas o papel admirável que lhe atribuíam os mestres gregos. A imperfeição humana tenderá sempre para transformar o atleta de Olímpia num gladiador do circo. É necessário escolher entre duas fórmulas atléticas que não são compatíveis. Para se defender contra o espírito do lucro e do profissionalismo que os ameaça invadir, os amadores, na maior parte dos países, estabeleceram uma legislação complicada cheia de compromissos e de contradições; muitas vezes aliás, respeitando mais a letra do que o espírito”. Note-se que de acordo com o espírito da época o amador (amateur), segundo o “Grand Dictionnaire Universel du XIXe Siècle de Pierre Larousse, não era o não profissional. Neste sentido Coubertin teve a oportunidade de posteriormente esclarecer que a sua ideia de profissionalismo (aliás como outras) sempre tinha sido mal-entendida. Neste sentido, dizia que tinha muito mais respeito por um profissional honesto do que por um não profissional desonesto. Assim, perante o desencantamento dos valores do Olimpismo temos de perguntar onde é que estão os verdadeiros amantes do desporto? Quer eles sejam ou não profissionais.

(Nota: o problema da atividade física e da dramática situação dos ginásios privados trata-se de um problema diferente que não faz parte da presente reflexão)

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana

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