OPINIÃO
Por Alexandre Gonçalves*

O desenvolvimento do capitalismo hospeda privatizações; novos ajustes da liberalização financeira, industrial e comercial; arquétipos de gestão e de governação globais; modernas configurações de flexibilidade e de mobilidade laboral; e renovadas “passadeiras” para o exterior. As fronteiras não se esfumaram completamente, todavia, e tendo em consideração as novas lógicas económicas políticas e sociais, têm vindo a ser reconstruídas e reestruturadas.
As telas de consumo estão esculpidas em cada País, contudo, as mesmas, também estão profundamente conectadas com o modernismo global contemporâneo. O quadro da internacionalização parece contribuir para a transfiguração dos produtos, das correspondências sociais, dos valores e da “soberania” de mercado.
O progresso não devia dispensar as cogitações sobre alguns vocábulos “equidistantes” como sejam: território; rural; urbano; e espaço. Somente, dessa forma, conseguiremos domesticar a definição e o significado dicotómico da “analogia” rural/citadino, bem como compreender as metamorfoses do presente e proceder à edificação de novos caminhos e estratégias de desenvolvimento.
O urbano tem vindo de uma forma progressiva a contemplar e a valorizar a ruralidade, pois o espaço rural exerce um forte atracção nas sociedades mais desenvolvidas. A conexão entre o urbano e o rural acaba por ser um paradigma recente. O território rural e o urbano aliaram-se, o primeiro oferece liberdade e formosura, enquanto o segundo trata do ócio e do labor. Todavia, torna-se difícil separar ou compreender a especificidade de cada um desses conceitos, uma vez que podem existir práticas rurais no espaço das cidades ou práticas urbanas no espaço do campo.
Existe uma relação de complementaridade, e até de dependência, entre o espaço rural e o espaço urbano. Os seus encadeamentos geográficos e económicos são, de forma simultânea, complexos e integradores, ou seja, as atividades económicas realizadas no campo dependem das práticas efectivadas na cidade, sendo esta conjuntura recíproca. Talvez a dependência entre esses espaços não seja equivalente, existindo como que uma relação de subordinação. Antes, afirmava-se que as cidades estavam subordinadas ao campo, uma vez que a prática da agropecuária é que ditava o ritmo e o estilo de vida nas cidades. Com o aparecimento e desenvolvimento da industrialização, as cidades metamorfosearam-se no centro económico, circunstância que contribui para a subordinação do campo em relação às cidades.
A sociedade vai-se diferenciando, contribuindo, esta trajectória, para que a realidade seja cada vez mais intrincada e confusa. Por sua vez, a cultura, que escolta todo esse processo, organiza de um modo mais elaborado a catalogação da própria realidade. A interpretação do rural é conjuntamente abundante e escassa, pois os indivíduos erigem determinados esboços sobre a realidade com o inquestionável propósito de se nortearem na sinuosidade da existência.
Os novos modelos da economia, as acessibilidades, e as recentes formas de comunicação e emprego têm forçosamente de constituir o interruptor de um crescimento equilibrado capaz de domar fracturas e divisões, bem como possibilitar às populações a confraternização com as dissertações do progresso. Logo, o desenvolvimento de determinados locais, com inferior dinamismo social e económico, necessita de coragem, de um conjunto de diligências coerentes e de uma panóplia de medidas exequíveis.  Será que não é fundamental avaliar e identificar o verdadeiro contributo que uma renovada “ruralidade” pode oferecer, tanto à sua própria transmutação, como à transfiguração de toda a sociedade?

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda

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