OPINIÃO
Por Alexandre Gonçalves*

A distinção dos governantes, através de um conjunto de símbolos institucionais, ainda desfila nas sociedades. Contemporaneamente, os objectos de luxo abdicaram do seu círculo “hegemónico” em prol de outros símbolos, como as faixas presidenciais, mais convencionais, e menos ostentosos e “ofensivos”. Todavia, as residências oficiais ainda recebem a designação de palácios, nas quais as abundantes fragrâncias de luxo, pomposidade e refinamento permanecem bem activas. As cerimónias, particularmente aquelas que embrulham a visita de outros chefes de Estado, também aconchegam enormes telas de despesa e magnificência. Será que a filosofia do luxo não acarinha o “dom” do desembolso, como forma de asseverar poder e excelência?
Os dispêndios de notoriedade funcionam, de modo sincrónico, como uma espécie de obrigação, uma ferramenta de distinção, privilégio, imunidade e afirmação social, e um “imaginário” de classe. Na verdade, o luxo é confeccionado como arquétipo simbólico e manancial de estatuto social, autoridade e poder, sendo representado por materiais, objectos e lugares considerados caros, tentadores e sedutores.
A raridade e as características de certos materiais metamorfosearam os mesmos em autênticos padrões de valor e apreço. Os indivíduos que hospedam e exibem materiais atraentes acabam por provocar nos outros alguns aromas de interesse e inveja. O itinerário histórico, social e cultural do luxo está intimamente ligado às texturas religiosas, ao poder político, à superfluidade, à abundância e à fortuna, solidificando uma representação robusta e agradável para a cultura das marcas e produtos. Será que esta cultura não caracteriza a sociedade de consumo actual? Será que os produtos de luxo devem ser deliberadamente caros? Será que o seu custo de aquisição possibilita que os seus consumidores sejam reconhecidos e autenticados como parte da elite social? Será que o poder de consumo “habilita” alguém?
A classe média está desvanecida. A Europa esbanjou a sua centralidade económica e vive numa considerável e desconfortável crise de crença. As marcas de luxo continuam, na sua esmagadora maioria, a ser europeias, contudo estão em pleno crescimento em todo o mundo. Será que devemos acreditar na crise do luxo?
O ideal humano não é o de consumir, mas sim o de conceber e repartir. Infelizmente o consumo alcançou uma predominância desmesurada, habitando-se no “encastelamento”. Será que a cultura do luxo não actua com configurações interessantes e manhosas diante da especulação financeira? Será que os cidadãos compreendem efectivamente os impulsos que os levam a consumir? Será que a satisfação do ego não alberga algumas doses de dependência e de “subordinação”? Será que não é extremamente importante compreender as particularidades e as potencialidades do mercado de luxo no mundo?
Presentemente, ricos e pobres vivem na mesma sociedade de consumo e são estimulados a procurar, tendo em conta os seus recursos financeiros, a realização pessoal. Os consumidores procuram fundamentos lógicos, harmónicos e coerentes no acto da compra, contudo o motivo principal é certamente o de alimentar o próprio ego. Será admissível falar de luxo no meio de uma crise tão profunda que até interfere com os paradigmas primários de consumo? Será que em diversas ocasiões, os materiais caros e magnéticos não estão conectados a tudo aquilo que representa a futilidade?
A necessidade de representação pode estimular a aquisição de produtos contrafeitos. A compra de imitações de produtos das marcas de luxo pode patentear uma espécie de represália figurativa por parte de grupos de consumidores supostamente discordantes com o estatuto do luxo, que se sentem recompensados ao “desconsiderar” os símbolos de estatuto e poder que na verdade lhes são inabordáveis.
Há quem pretenda ostentar marcas de luxo para falsear uma determinada condição social que eventualmente foi perdida, desaproveitada ou é quimericamente desejada. Esse público procura adquirir produtos luxuosos por preços mais reduzidos, desenvolvendo automatismos ilógicos e patenteando modelos de consumo que não vão ao encontro da sua conjuntura financeira.
Em incontáveis conjunções, o luxo representa o desembolso, a exibição e o poder sobre o dinheiro. A especulação financeira e o capital “versátil” convergem para o consumo de produtos de luxo. Será que as crises promovem o alargamento da oferta e a descida dos preços dos produtos de luxo? Será que os produtos de luxo obedecem a alguma hierarquia?
O preço de mercado de um determinado produto acaba por constituir uma condição fundamental para o seu ingresso no mercado do luxo. Na realidade, é uma configuração de fragmentação de mercado, uma vez que os preços elevados limitam o consumo de produtos de luxo aos grupos menos favorecidos. O preço espelha não só os valores racionais coligados à marca e ao produto, como também os elementos irracionais.
Actualmente os jovens conhecem os produtos de luxo, uma vez que alguns deles já os adquiriram e a maior parte, sem nunca os ter comprado, já os viu na televisão, cinema, jornal ou revista. Numa época em que infelizmente existem poucos sonhos, o luxo consegue inserir uma textura de sonho nos cidadãos e no próprio consumo. Deste modo, todos os cidadãos passam, já que mais não seja, a ter acesso ao sonho. Será que o poder de compra não envolve também a possibilidade de sonhar? Será que o luxo não está conexo a uma utopia? Será que o luxo não aconchega demasiados desperdícios? Será que sem o luxo existiriam castelos, palácios, praças, monumentos e catedrais?
A diferenciação entre consumidor e cidadão tem sustentado compridas e maçudas altercações. A identidade social, cultural e política dos indivíduos passa cada vez mais pelo modo de como os mesmos erguem os seus estilos de vida. Será que a mera ostentação de produtos luxuosos consegue credibilizar os cidadãos?

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda

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