Tempos de absurdo

OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

A esquizofrenia política, quando se cruza com o desporto, regra geral, cai no absurdo. Pelo futebol, António Costa renunciou à política… e, perante o clamor social, retomou à política pela força do absurdo. Quer dizer, a partir do futebol absurdo que domina o País, Costa, de acordo com a expressão de Albert Camus, deu um “salto para o impossível” e regressou à ordem do dia da política nacional como se nada tivesse acontecido. Quis tudo, perdeu tudo e, assim, escreveu mais uma página acerca do absurdo Sistema Desportivo português, institucionalizado em 2005 através do Contrato-programa de desenvolvimento desportivo nº 48/2005 onde se previam cinco medalhas para Pequim (2008) que não passaram de uma realidade virtual desde logo porque se caiu no absurdo de reduzir a competência das Federações.
Hoje, o desporto vive subjugado pelos absurdos interesses do homo politicus que, sob a superintendência do homo economicus, têm vindo a corroer o carácter ético-moral do homo sportivo e a transformar o desporto no universo do absurdo dominado pelo insustentável peso do dinheiro das medalhas olímpicas a ser conquistadas por portugueses oportunamente naturalizados de aviário. E, assim, o desporto português vive sob a insanidade de um absurdo desenvolvimento que, de há vinte anos a esta parte, insiste na estupidez de uma decisão política realizada, sem qualquer sustentação sob o signo da “galinha dos ovos de ouro”. Em consequência: (1º) No que diz respeito à base apresenta as piores taxas de prática desportiva da União Europeia (EU) e; (2º) No que diz respeito aos Jogos Olímpicos, para além do absurdo que é a recusa à Missão Olímpica do futebol, tem apresentado resultados cada vez mais medíocres.
Face ao absurdo do Sistema Desportivo resta aos seus protagonistas a recusa em cooperar com um modelo sem sentido que esmaga o melhor que o desporto tem para, como referia Camus, transformar o insuportável absurdo num momento de partida a fim de se construir um desporto melhor. Assim sendo, todos aqueles que do ponto de vista técnico ou administrativo organizam a prática desportiva que acontece nos milhares de clubes por esse país fora, devem ousar afrontar os deuses do absurdo quando estes afirmam não existir um sentido último para o desporto para além do atávico “dress code” das cerimónias institucionais e da ilusão das medalhas olímpicas. Perante um desporto caduco, gerido por gente caduca, só a revolta democrática lhe pode voltar a dar um sentido verdadeiramente humano à sua existência. Só assim, é possível voltar-se a acreditar no seu potencial pedagógico e cultural no sentido da comunhão dos seus princípios e valores que contribuem para a afirmação pessoal e social da transcendência da própria vida. A este respeito dizia Camus: “… depois de muitos anos em que o mundo me ofereceu muitos espetáculos, o que, finalmente, eu sei de mais seguro sobre a moral e as obrigações dos homens, é ao desporto que o devo e foi no RUA (Racing Universitaire d’Alger) que o aprendi”. Alguém devia explicar isto aos dirigentes que, na mais confrangedora ignorância, ocupam o vértice estratégico tanto da política quanto do desporto. É urgente restituir o poder aos clubes que, por esse Portugal fora, do ensino ao alto rendimento passando pelo lazer, asseguram a prática desportiva dos portugueses.
O amor de Camus pelo RUA onde jugou futebol na posição de guarda-redes era enorme. Contra o politicamente correto que levava os esquerdistas franceses amantes da União Soviética a desprezarem o futebol em particular e o desporto em geral, Camus, em Abril de 1953, escreveu o artigo para a revista do clube do qual extraí a frase que citei. Mais tarde, quando ganhou o Prémio Nobel, a revista  France Football na edição de 17 de Dezembro de 1957, voltou a publicar o artigo. Entretanto, por diversas vezes, inclusive na sua obra póstuma “O Primeiro Homem”, um romance autobiográfico, Camus utilizou frases semelhantes substituindo a palavra desporto pela de futebol. Camus morreu em janeiro de 1960, vítima de um desastre de automóvel. Hoje suspeita-se que tenha sido um desastre provocado às ordens o regime soviético.

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana

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