OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Ricardo Araújo Pereira (RAP) esteve na Festa do Avante para participar num debate sobre “humor e política”. Ele, que não esconde a sua opção político-partidária, o que é saudável, não sei se explicou, mas se não explicou devia ter explicado aos presentes o que era o humor nos países da Cortina de Ferro. Porque, na União Soviética e seus satélites, os humoristas que não se sujeitassem a fazer humor de acordo com os cânones do Partido eram presos e enviados para os gulags. Quer dizer, RAP na União Soviética simplesmente não existia e se existisse estava preso num qualquer gulag.
E como na Festa do Avante o PCP quis demonstrar o seu alto grau de eficiência, com a sua competência para contar piadas, RAP podia ter aberto o debate com uma anedota acerca da eficiência na União Soviética. Por exemplo: Certo dia um cidadão soviético dirigiu-se a um stand a fim de comprar um automóvel. Acordada a compra o vendedor diz-lhe “tudo bem, de hoje a dez anos pode vir buscar o seu automóvel”. “De manhã ou à tarde?” perguntou o comprador. “Que diferença faz?”, retorquiu o vendedor. “É que o canalizador vai lá a casa da parte da manhã” respondeu o comprador.
Apesar dos regimes comunistas não gostarem de piadas, segundo Christie Davies (1941-2017) professor emérito na Universidade de Reading (Inglaterra), a maior quantidade de piadas a ridicularizar os respetivos regimes era produzida pelos países da Cortina de Ferro. Tal facto significa que o humor é uma arma terrível contra o poder, sobretudo quando o poder abusa do poder que tem.
Perante o que aconteceu a pergunta que se coloca é a seguinte: Sabendo-se que fazer humor acerca dos governos nos regimes comunistas é proibido para além de extremamente perigoso, como é que um humorista comunista sobrevive numa sociedade em que o Partido Comunista se encontra amancebado com o Governo?
É simples e RAP encontrou a solução, inverte o alvo e passa a fazer humor à custa da oposição.
E transforma-se no humorista do regime. O problema é se o regime acaba com a oposição. Nessa circunstância RAP acaba como humorista ou porque está calado ou porque está preso.

*Professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana

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