Neill Lochery, autor e historiador escocês, doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Durham e responsável pela cadeira de Política Israelita na University College of London, acaba de publicar o seu mais recente livro que se intitula “Porto, a Entrada para o Mundo”.
Este volume oferece uma narrativa dos mais destacados acontecimentos que ocorreram na Invicta. Foi para falar sobre este livro que acaba de ser lançado que se reuniu num hotel da Baixa do Porto com uma equipa da Notícias Magazine (NM). O Porto. Apresenta-lhe excertos desta entrevista, publicada hoje no NM.
Ficamos a saber que o título do livro “Porto, a Entrada para o Mundo” é o empréstimo de uma expressão utilizada pelo então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, aquando da sua visita ao Porto em agosto de 1998 e foi escolhida por Neill Lochery porque “resume na perfeição o que é o Porto. A ideia de que é muito mais uma porta de entrada do que uma porta de saída é uma das razões que explica a atração dos que escolhem a cidade como base temporária ou permanente”.
Nesta entrevista à Notícias Magazine, o autor fala ainda do papel subestimado do Porto na História de Portugal, do sentimento de identidade do Porto e de pertença a Portugal; aborda ainda o facto de “se trabalhar mais no Porto do que em Lisboa”, o centralismo e a questão do turismo, e ainda a possibilidade de um presidente independente ser eleito para a Câmara Municipal de Lisboa.
Neill Lochery indica, nesta entrevista, que o seu objetivo foi “escrever um livro envolvente usando diferentes tipos de fontes que ajudassem a explicar de forma interessante a história da cidade sob diferentes pontos de vista das suas influências. A minha esperança é que as pessoas se revejam num livro de história que as atraia ao Porto.”
O ponto de partida para uma leitura atenta deste livro pode muito bem ser a sinopse, que lê “Porto, a Entrada para o Mundo” como “um vibrante centro comercial e cultural, que se orgulha das suas ligações históricas com o mundo exterior”.
Foi no ainda encerrado Hotel Infante Sagres, na Baixa do Porto, (que abriu em exclusivo para a realização desta entrevista) que o famoso autor se reuniu com a Notícias Magazine para apresentar o seu mais recente volume dedicado ao Porto.
Lochery confessa que apesar de ter escrito muito sobre Lisboa, se apercebeu da importância da cidade do Porto enquanto fazia investigações para livros anteriores, especialmente no que diz respeito ao Liberalismo. A pesquisa para este livro, agora lançado, teve início há dois anos em Inglaterra e depois já em Portugal para “aprofundar conhecimento” sobre as guerras liberais e absolutistas entre D. Pedro e D. Miguel.
De facto, Neill Lochery afirma à NM que um dos aspetos mais marcantes do livro que agora foi publicado e que “marca a personalidade do Porto”, foi a guerra entre aqueles dois monarcas que tinham entendimentos diferentes sobre o exercício do poder, e que demonstra “a noção de resiliência dos portuenses, da sua necessidade de sobrevivência durante o cerco da cidade (1832-1833)”.
Terminada a guerra, Lochery salienta que aconteceu “um movimento ao contrário”, ou seja, segundo o historiador escocês, no Porto, “foi o começo de algo novo, de inúmeras batalhas entre diferentes grupos liberais sobre a Constituição, (…). E o interessante foi que esses debates sobre a Constituição não tiveram lugar em Lisboa, a capital onde estavam e estão o poder e as elites, mas no Porto”, refere Neill Lochery.
Sobre se o papel do Porto na História de Portugal é subestimado, o reputado escritor atira um “claro que sim” e afirma que “muita da política de Portugal passou-se no Porto”.
Lochery acrescenta, também, que outra das questões essenciais em relação à Invicta está relacionada com a questão republicana. “A primeira tentativa de derrubar a monarquia aconteceu no Porto a 31 de janeiro de 1891, quando os mais importantes movimentos políticos estavam lá centrados”.
À questão sobre se o Porto será a cidade mais britânica de Portugal, Neill Lochery sugere a observação da arquitetura na cidade para afirmar que “olhando para alguns edifícios como o Palácio da Bolsa ou o Hospital de Santo António, é fácil imaginarmos que estamos em Edimburgo (…) ou em qualquer cidade do norte de Inglaterra”.
Um outro aspecto que o escritor ressalta é o facto de que “geralmente as cidades têm um estilo único e o Porto é muito eclético”.
O que o leva a concluir, na mesma entrevista, que “cosmopolita talvez não seja a palavra mais adequada” para classificar o Porto; para Lochery, “é mais uma espécie de sentimento europeu, mais até do que Lisboa, o que vem, lá está, da arquitetura e de como a cidade foi sendo ordenada ao longo dos tempos”.
Além disso, para o historiador escocês, o “sentimento britânico” que o Porto sempre demonstrou no passado, “ainda permanece, nomeadamente na personalidade dos portuenses. Para as pessoas do Porto, o trabalho é encarado como a parte central da vida”, referindo a título de curiosidade que “uma das primeiras coisas em que reparei quando cheguei ao Porto foi nos tempos das horas de ponta no trânsito, que são muito mais cedo do que em Lisboa. No Porto há uma cultura de empreendedorismo e de trabalho mais atrativa para estrangeiros que queiram investir em Portugal”.
Acerca da relação do Porto com o turismo, Neill Lochery afirma que ao contrário de Lisboa, que se “tornou turístico-cêntrica”, tendo sido “quase varrida pelo turismo”, o Porto “teve mais cuidado nessa matéria”.
Apesar de Portugal ser um país cuja dimensão geográfica não é muito extensa, Lochery considera que portuenses e lisboetas “são diferentes”; para o autor, “as pessoas do Porto estão mais comprometidas com o resto do país, ao passo que em Lisboa são mais centradas nelas próprias e na cidade” e acrescenta que “isso explica muito o centralismo do país”. Fenómeno que surpreendeu Lochery, porque “não vejo pessoas no Porto a tentar declarar a independência da cidade e da região”.
Para o professor de Ciência Política, “são questões históricas que continuam e que vão continuar na ordem do dia”, exemplificando que “ainda recentemente houve um confronto público entre a Câmara do Porto e o Governo por causa da TAP”.
O professor foi desafiado a clarificar se é verdade que existe “a identidade do Porto” ou não seria esta afirmação um cliché; ao que retorquiu “claro que existe! O Porto é muito distinto de Lisboa. É como estar em Portugal sem estar em Portugal”, e prosseguiu afirmando que “apesar dessa forte identidade” ou de se afirmar na Invicta que “o Porto é uma nação”, o “sentimento de pertença a Portugal é enorme”.

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