OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Os ventos da globalização estão a determinar o surgimento de um neomercantilismo que, tanto à esquerda quanto à direita, nos mais diversos países do mundo, entre os quais, como exemplos mais flagrantes, surgem os EUA e a China, está a transformar a vida à escala do Planeta. O neomercantilismo determina que os países passem a ser geridos tal como se fossem empresas pelo que o economicismo tomou conta da ação económica que se coloca acima de quaisquer considerações de ordem social.
Neste quadro, a estratégia darwinista de soma nula passou a orientar as relações entre os países numa lógica da mais profunda desumanização da consciência coletiva das nomenklaturas político-económicas detentoras do poder.  Os cidadãos com direitos e deveres, de um dia para o outro, começaram a ser tratados como clientes com poucos direitos e nenhuns deveres para com o coletivo social e, em consequência, as preocupações relativas ao desenvolvimento humano deixaram de estar focadas nos interesses das pessoas para passarem a estar focadas nos interesses das economias de negócios e na sustentação de uma pesada máquina burocrática que reduz todas as atividades sociais a uma simples equação que determina as respetivas rendibilidades económicas.
Neste cenário, as pessoas no acesso à educação, à saúde, ao trabalho e, entre outros, ao desporto … e à vida, só valem se forem capazes de render. Se não renderem, sejam elas novas ou velhas, mas sobretudo velhas, são simplesmente afastadas. E, assim, surge no momento ideal a questão da eutanásia. Não porque a eutanásia, no curto prazo vá matar muitos velhinhos, mas porque a eutanásia vai, ao longo dos tempos, criar um ambiente propício para que os velhinhos, economicamente carentes e sem recursos para tratarem das doenças, aceitem, de bom agrado, ser eutanasiados. Tal como na holanda que o sistema já lhes permite aceder a um comprimido eutanasiante.  Por cá, perante uma certa esquerda e uma certa direita desejosas de implementar uma indústria da morte fica ainda por saber se o comprimido pode ser de marca ou tem mesmo de ser genérico.

*Professor jubilado da Faculdade
de Motricidade Humana

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