A designer portuguesa Ana Maia está a criar um projeto para repensar a cultura do trabalho e influenciar líderes do mundo organizacional, de forma a criar experiências mais inclusivas e diminuir os efeitos negativos do stress na saúde.

Residente na Holanda desde 2005, Ana trabalhou nos últimos anos em design de produtos digitais, área cuja evolução foi acompanhando, e também lhe interessou a influência da antropologia enquanto disciplina para a relação designer/utilizador.
«O projeto começou a germinar no meu subconsciente depois de experiências frustrantes no local de trabalho, numa grande empresa comercial. O stress aumentava, e eu continuava, sem dar conta, ignorava os sinais físicos, mentais e emocionais. Saí da empresa de forma reativa, pois já não aguentava mais», recordou.
Fez formação como designer em Portugal, na Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação (IADE), onde sentiu um grande fascínio pelas disciplinas de ergonomia e de estética. Ana decidiu sair do país quando compreendeu que não tinha perspetivas para se desenvolver profissionalmente.
«Queria outros desafios, e sentia que Portugal não mos dava”, recordou, sobre a consequente aposta num “lugar que estivesse distante da cultura sul europeia».
Na Holanda, viveu nos primeiros anos em Delft, e depois mudou-se para Amesterdão, onde ainda reside.
Tal como muitos jovens criativos que trabalham nesta área, o entusiasmo de Ana Maia foi inicialmente intenso, num ambiente em que acreditava poder produzir «respostas com o design como agente tradutor da arte no dia a dia».
Trabalhou em aplicativos móveis, desenvolvendo serviços digitais através do design de interfaces, nomeadamente numa grande empresa digital no setor das viagens, na qual esteve envolvida no design gráfico de partes da experiência, como áreas do serviço, onde o utilizador pode rever a sua estadia.
«O ambiente de trabalho nos primeiros meses era bom, especialmente porque tinha uma equipa comigo com quem já trabalhava na empresa anterior», recordou, mas nos vários lugares dentro da mesma empresa onde passou, começou a sentir um crescente desconforto com a intensidade que era exigida.
Concluiu que as políticas das empresas e os valores não se alinhavam com os seus: «A forma como nos avaliavam, a carga horária. Tudo era compensado com uma cultura empresarial com a qual eu não me identificava».
«As métricas de sucesso quantitativas entravam em conflito com aquilo que eu acreditava ser a métrica de qualidade. O tempo que passávamos na empresa afastava-nos demasiado do produto no seu contexto real, usado pelos utilizadores verdadeiros», explicou à Lusa a designer de 38 anos, nascida em Lisboa, que cresceu no Algarve.
Tentou ainda sugerir alguns projetos relacionados com inovação dentro da empresa, «mas não foram bem vindos».
Acabou por sair do mundo corporativo. Esteve algum tempo em reflexão profunda, e um projeto diferente – a que deu o nome “Movement Is My Constant” (“O Movimento É a Minha Constante”, em tradução livre) – foi germinando nas perspetivas do futuro de Ana Maia, colocando-se numa posição diferente daquela que tinha vivenciado até então.
«O meu objetivo, através desta plataforma ‘online’, é criar uma ponte entre o movimento e técnicas de incorporação com o mundo empresarial, procurando responder às perguntas: como será o futuro do trabalho? O que pode o movimento e o design criar para o melhorar?», explicou.
No centro do projeto está o movimento, e a sua exploração através do ‘design thinking’ de forma alargada, que também abrange a arte, para gerar ideias e criar possibilidades.
Ana diz que gostaria de influenciar líderes, equipas estratégicas e equipas que estão no “terreno”, bem como arquitetos, e ‘designers’ que trabalham com o espaço para dar acesso a processos criativos e usá-los de forma inovadora.
O seu projeto – que está a tomar forma num sítio ‘online’ chamado www.movementismyconstant.com – vai mais longe, e pretende repensar a atual cultura de trabalho, de modo a criar experiências mais inclusivas, que tenham até impacto na saúde, diminuindo o stress, a ansiedade e a depressão, queixas que ouviu com muita frequência onde trabalhou.
«Gostaria de inspirar através do meu projeto, de incluir as práticas que para mim foram fundamentais para ter a minha energia de volta, e usando o design para as traduzir e aplicar», apontou.
O sítio ‘online’ em formação possui, para já, ‘podcasts’ com entrevistas que Ana Maia fez a profissionais na área de movimento: «Com estas entrevistas quero abrir caminho para inspirar não só o meu projeto, mas também quem ouve, e tem o poder de influenciar outros no contexto organizacional».

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