OPINIÃO
Por Gustavo Pires*

Numa cerimónia da Federação de Desportos de Inverno de Portugal (FDIP) em que foi distinguido como a personalidade do ano, o secretário de estado da Juventude e do Desporto disse “ter a certeza” de que, ainda nesta legislatura, vai ser construído um Pavilhão do Gelo para a prática dos desportos de gelo.
Há muito que tenho para mim que o desporto reflete o estado da nação pelo que se trata de uma espécie de barómetro da qualidade de governação do País. Por isso, quando o responsável governamental do setor, na mesma cerimónia em que é agraciado como personalidade do ano, anuncia um empreendimento para a modalidade, anúncio que é desmentido passados uns dias pelo próprio governo e, depois, o dito secretário de estado, perante um olímpico silêncio das organizações desportivas, como se nada tivesse acontecido, continua no exercício das funções, é porque há algo que vai muito mal na governação do País.
Não se trata só do facto do secretário de estado, perante o espanto do País ter exorbitado as suas competências. Não se trata só do facto do governo ter sido apanhado desprevenido pelo que foi obrigado a desmentir o secretário de estado. Não se trata só do secretário de estado ter continuado no exercício de funções como se nada tivesse acontecido. Trata-se do fato de, mais uma vez, os portugueses terem sido confrontados com uma determinada práxis política caracterizada por uma gestão por impulsos ao sabor da agenda política de circunstância que, no caso vertente, na minha modesta opinião, nada tem a ver com o programa de governo em matéria de desporto e, muito menos, com os interesses dos portugueses e do País.
O desenvolvimento sustentável é aquele que consegue suprir as necessidades do presente sem comprometer as necessidades do futuro. Por isso, não me quer parecer que,no quadro do desenvolvimento do País e do desporto,a construção de um pavilhão do gelo à custa do erário público, tenha ele proveniência no estado central ou nas autarquias, seja aquilo que mais interessa aos portugueses e à organização do futuro do País.
O sistema desportivo, na sua complexidade, numa dinâmica adaptativa e a diversas escalas espaciais, temporais e organizacionais, integradas ou não de acordo com uma hierarquia está delimitado por fronteiras espaciais, orgânicas e funcionais e é influenciado por problemas de contexto com o qual deve interagir. Neste sentido, quando, na maior das incongruências, os governantes tomam decisões em matéria de políticas públicas de acordo com a pressão das circunstâncias e numa lógica completamente desintegrada das diferentes áreas sociais, estamos perante um problema de ordem ético-político que compromete a qualidade de vida dos portugueses e o futuro do País.
Um Governo que, numa perspetiva sistémica e integrada, não é capaz de produzir ideias simples, claras, precisas e concisas que respondam ao ideário da sua narrativa política, para uma atividade tão simples como é o desporto que merece o entusiasmo da generalidade dos portugueses, ricos ou pobres, velhos ou jovens, homens e mulheres, fascistas ou democratas, é porque também não é capaz de organizar outras atividades muito mais complexas e de muito maior responsabilidade no quadro da governação do País e do seu desenvolvimento.
Quando um secretário de estado, à margem de qualquer integração política, no quadro de um país a viver uma situação de enormes dificuldades na educação, na saúde, na segurança social, na habitação, na segurança pública e, entre outras áreas, no desporto, inopinadamente, anuncia a construção de um pavilhão do gelo completamente desenquadrado de uma orientação estratégica para o desporto no quadro do desenvolvimento do país, é porque o Governo em matéria de desporto está em completa roda livre, e em roda livre está relativamente às demais áreas sociais.

*Professor jubilado da Faculdade
de Motricidade Humana

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