BOM DIA
Por Aníbal Styliano

O tempo parece mais veloz porquanto são inúmeras as informações, contradições e esquecimentos, que nos assaltam a todo o momento.
Se por cada nova memória uma antiga se vai diluindo, corremos o risco de nos perdermos de vez…
Há quem fabrique estratégias de esquecimento pois “apagar passados” pode ajudá-los a reconstruir novas narrativas que ninguém tem tempo para certificar.
Como cogumelos, alguns venenosos, as tentativas de criar novas roupagens são constantes e imparáveis.
Se atentarmos em comportamentos e atitudes de figuras do presenteque desempenham ou desempenharam funções de governo, entramos num universo de faz-de-conta, num nevoeiro denso, onde se produzem falácias e mentiras, à vontade do freguês.
Em Guimarães, cidade que com o Porto (espaços de sotaque com verdade, locais de frontalidade sem maquilhagem) foi alicerce da nacionalidade, nasceu Gil Vicente.
Para além do génio, revelou a sociedade em que viveu (séc. XVI) com uma crítica sempre mordaz.
Imaginemos um cais onde se preparam para embarcar diversas personagens segundo as opções de um Anjo e um Demónio, na viagem que os leva ao Céu ou ao Inferno.
Numa genial caricatura da sociedade portuguesa de então, os personagens alegóricos tinham de demonstrar o seu merecimento para poderem entrar a bordo da barca pretendida. Gil Vicente designou a peça como um “auto de moralidade”.
Nos tempos de hoje, não faltam estilistas de ilusão, mentideiros profissionais, oportunistas corruptos, fanáticos fundamentalistas e inventores de passados para futuros promissores e muito lucrativos.
Só falta Gil Vicente!
Não será tempo para um “auto de memória” onde não pode haver espaço para esconder “as proezas mais insólitas”, impedindo esquecimentos e mutações extraordinárias?
Mais do que um lugar nas barcas (ou aviões de companhias lowcost) é tempo de a justiça exercer as suas funções e meter no local apropriado os figurões que se banqueteiam diariamente, só porque integram o grupo dos que acham que podem fazer tudo…
Atualmente, o paradigma não é céu e inferno mas antes liberdade e prisão.

*Professor

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