O último dia do NOS Primavera Sound escreveu-se no feminino, com parênteses para a salve simpatia de Jorge Ben Jor. Rosalía encheu o Parque da Cidade, Kate Tempest e Neneh Cherry abusaram da palavra e Erykah Badu foi Shiva do Baduizm.

Mas o dia começou bem antes, boicotando a rigidez de horários apontados na agenda. Quis o festival abrir as portas com a prata da casa, ou seja, com os Shellac a montaram um concerto a poucos metros do pórtico, cenário improvisado de ágora grega com o público em semi-círculo a levar com aquela banhada de rock na venta. Terminaram a actuação relâmpago com um “ok, acho que nos vamos voltar a ver para o ano”, não há como fazer um Primavera sem Shellac.
Passaram-se 10 minutos, 20 minutos, meia hora e quando finalmente a norte-americana Erykah Badu entrou em palco, na noite no NOS Primavera Sound, 35 minutos depois da hora marcada, já havia quem pensasse em cancelamento e quem assobiasse fortemente. A deusa da soul começou a sua atuação em modo animal, envergando uma coroa de penas na cabeça, e depois de uma introdução com ‘Hello’ agradeceu o facto de o público ter esperado por ela.
“Quantos de vocês estão a ter a vossa primeira experiência Badu ao vivo hoje?”. As respostas positivas foram bastantes. Apesar da comunicação constante com a plateia, que ainda enchia o Parque da Cidade, a ligação entre palco e plateia parece ter sofrido algumas interferências pelo caminho. Talvez se não fosse o último dia e um dos últimos concertos, a história tivesse sido diferente.

Ainda… entre sons densos, envoltos em ambientes jazzy, a artista texana celebrou os 22 anos do mítico álbum de estreia “Baduizm” com uma viagem funky até ‘On & On’ e uma ‘Appletree’ dedicada ao filho, que tem precisamente a mesma idade do seu primeiro filho musical, explicando que quando gravou o álbum estava a tentar comunicar “através de frequências” com o rebento que tinha no ventre. “Esperei que os bebés dos anos 90 crescessem para poder falar destas coisas”, disse, depois de apelar à paz e ao amor e de confessar que foi banhar os pés e as mãos “na vossa água” durante o dia.
Ainda com os cabelos eriçados, corpo desarranjado, fomos assentar o espírito em Terno. A banda de Tim Bernardes, que nos brindou com um bonito Recomeçar em 2017, chegou límpida, de branco, e passou o seu rock tropical com ginga funk numa boa onda paulistana. No extremo oposto unia-se a intemporalidade pop de Lena d’Água com o indie de Primeira Dama, 40 anos de distância que o palco colocou em pé de igualdade. A harmonia resultou em empatia com os fãs, os de agora e os do tempo de Vígaro Cá, Vígaro Lá, lado a lado no relvado.A deusa da soul norte-americana, que não se deixou fotografar, fez-se esperar mais de meia-hora, mas agradeceu a paciência do público.

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