Escolhido por unanimidade, o cantor, compositor e escritor Chico Buarque é o novo vencedor do Prêmio Camões de Literatura, o principal de língua portuguesa, anunciou o júri na tarde desta terça-feira no Rio de Janeiro.

Entregue anualmente em reconhecimento à obra completa de um autor de qualquer país de língua portuguesa, o último brasileiro a vencer o prémio foi Raduan Nassar, em 2016, autor de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”.
Segundo o escritor Antonio Cícero, membro do júri, o prémio a Chico Buarque é um reconhecimento que vai além de sua obra literária e se estende à música. “É evidente que esse prémio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música ‘Construção’, por exemplo, é um poema até raro de se fazer”, analisa.

Os dois compositores são vultos das artes e da música mundiais e não foram apenas distinguidos pelos percursos artísticos expressados através da música. Dylan é também poeta e Buarque juntou a dramaturgia e o romance à extensa e notável obra poética e musical, formando um percurso marcadamente literário.
“É evidente que este prémio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música “Construção”, por exemplo, é um poema até raro de se fazer”, diz o escritor Antonio Cicero, poeta, ensaísta e um dos membros do júri.
O mesmo se poderia de dizer de muitos outros poemas escritos para música por Chico Buarque, reflexões densas sobre o prosaico, sobre vidas que se vivem nas ruas, trágicas e mágicas, tão perto do céu e do chão, tão junto do corpo e do coração. Como “Samba e Amor”, em que Chico tão bem se define. “No colo da bem-vinda companheira / No corpo do bendito violão / Eu faço samba e amor a noite inteira / Não tenho a quem prestar satisfação”.
Aos 74 anos, Chico Buarque, que até à hora de fecho desta edição não tinha ainda reagido ao prémio, é o 13.º brasileiro a ser galardoado com o Camões, que vale 100 mil euros, e sucede ao escritor cabo-verdiano Germano Almeida.
Em 1966, publicou o seu primeiro conto, “Ulisses”, no suplemento literário do jornal “OEstado de S. Paulo”. A obra viria a ser incluída, mais tarde, no livro “A banda”. Seguem-se a novela “Fazenda modelo”, em 1974, o poemário infantil “Chapeuzinho Amarelo” e “A bordo do Rui Barbosa”, publicado em 1981 e escrito durante a década de 60. A estreia no romance acontece em 1991, com “Estorvo”, que venceu o seu primeiro Jabuti de melhor romance no ano seguinte. Em 2004 e 2010 conquista o mesmo prémio, com “Budapeste” (de 2003) e “Leite derramado” (2009). O mais recente romance,”Irmão alemão”, é publicado em 2014. Também é autor de vasta dramaturgia. A “Ópera do Malandro” (1978) é provavelmente a mais conhecida.
O anúncio da entrega do maior prémio de literatura em língua portuguesa , instituído por Portugal e pelo Brasil em 1988, foi feito ontem ao início da noite. Para além de Antonio Cícero, o júri incluía também Clara Rowland e Manuel Frias (Portugal), Antônio Carlos Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola)​ e Nataniel Ngomane (Moçambique).
Em 31 edições, o prémio contemplou nomes como António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Manuel António Pina e José Saramago, além dos brasileiros Jorge Amado, Autran Dourado ou Rubem Fonseca.

Autor de múltiplas canções reconhecíveis aos primeiros acordes ou às primeiras palavras, apaixonado por futebol, caminhante inveterado, nome maior das artes brasileiras – e mundiais -, Francisco Buarque de Holanda é, há décadas, um ícone do Brasil.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de junho de 1944, quarto de sete filhos do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim, Chico Buarque venceu hoje o Prémio Camões, juntando-se a uma lista de conterrâneos galardoados com a distinção literária criada por Portugal e pelo Brasil que inclui, entre outros, Rachel Queiroz, Jorge Amado e Rubem Fonseca.
Entrevistado por José Nuno Martins, em Lisboa, em 1974, pouco tempo depois do 25 de Abril, quando o Brasil ainda estava sob ditadura militar, o texto da RTP começava com uma pergunta e uma resposta: “Haverá quem não conheça Chico Buarque de Hollanda em Portugal? Evidentemente que sim, toda a gente conhece esse menino tímido que um dia disparou com a banda por aí fora”.

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