OPINIÃO
Gustavo Pires*

De acordo com a comunicação social, numa escola gerida pelo governo autónomo da Catalunha, foi instituída uma Comissão do tipo “pensamento politicamente correto” que censurou 30% do espólio da biblioteca da escolana medida em que considerou que, livros como O Capuchinho Vermelho, promoviam “ideias sexistas” nas crianças. Segundo a douta Comissão,só 10% dos livros estava em condições de serem lidos pelos alunos! As notícias não referem se, depois, os livros foram queimados ou, simplesmente, despejados no caixote do lixo. Mas, uma coisa é certa, quando se começa a censurar livros acaba-se, invariavelmente, a ostracizar e a perseguir pessoas só porque se atrevem a manifestar opiniões que atentam contra o pensamento político e os interesses da oligarquia estabelecida.Trata-se de uma estratégia expedita que, à laia Joseph Goebbels do nazismo alemão ou do Glavlit do estalinismo soviético, pretende controlar o pensamento e a consciência das populações.
Há gente que, através da estuporada “ideologia do género”, quer transformar o mundo numa espécie de jardim zoológico. Para isso, se necessário for, até criam um Ministério do Esquecimento que nomeia comissões com o fim de apagarem o passado e zelarem pela respeitabilidade dos novos costumes politicamente corretos. E as comissões começam, imediatamente, a tomar medidas a fim de fazerem esquecer a história e, em consequência, até as mais inocentes e encantadoras estórias infantis são apagadas do imaginário coletivo das crianças. A fiscalização sistemática da literatura, do desporto à economia política, é um dos instrumentos mais eficazes do controlo social que se institui nos regimes fascistas. E para que o controlo seja verdadeiramente eficiente deve-se começar por formatar a consciência das crianças o mais cedo possível. E, assim, o Lobo Mau, só porque quer comer o Capuchinho Vermelho, passa a ser um reles homofóbico que não pode fazer parte das estórias infantis. Ou, então, reescreve-se a história e, numa versão mais de acordo com a “ideologia do género”, o Capuchinho Vermelho, ao aperceber-sede que quem está acamado é o Lobo Mau vestido com a touca e a camisa de noite da avó, conclui que a avó já tinha sido comida e que ela seria a próxima. E, sem adiantar conversa, num gesto hábil, tira a sua pistola automática do cesto do farnel e,tal como faria qualquer rapaz, dá três tiros no Lobo Mau.
Prevejo que censurar ou deturpar livros infantis que fizeram e continuam a fazer as delícias de milhões de crianças por esse mundo fora, passe a ser o novo mantra da “ideologia de género”.Todavia, os ideólogos do género estão completamente enganados porque, por mais voltas que deem,o respeito pela igualdade social entre homens e mulheres não é inimiga das diferenças biossociais entre sexos.
Por isso, não vale a pena, aos novos estalinistas do politicamente correto da “ideologia de género”,tentarem controlar o pensamento das crianças censurando centenas de anos de cultura construída com milhares de estórias infantis.Quer dizer, é inútil tentarem assassinar o Capuchinho Vermelho. Como tantos outros exemplos enternecedores das estórias infantis tem um fundo pedagógico que só pode ser distorcido por gente de mentalidade distorcida. A estória, no fundo, relata a aventura de uma pequena heroína que, ao atravessar sozinha a floresta sombria, enfrenta os seus próprios medos,a fim de ir visitar a avó que estava doente. A estória traduz uma imagem de fragilidade, coragem e amor que tem tocado fundo no coração de sucessivas gerações de crianças de ambos os sexos levando-as a compreenderem a beleza da superação pessoal e social. Destruir exemplos como este, que se encontram nas mais diversas estórias infantis,é um atentado aos Direitos das Crianças que devem poder viver a sua própria infantilidade sem serem violentadas por algumas mentes adultas, do ponto de vista ideológico, completamente depravadas.

*Professor da Faculdade de Motricidade Humana

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