OPINIÃO
Gustavo Pires *

Esta olímpica prosa não trata do caixeiro-viajante de Kafka que, um dia, acordou metamorfoseado num enorme inseto, mas da metamorfose do improvável líder económico, político ou desportivo que, um dia,ao acordarmos,vemos que ele se metamorfoseounum monstruoso tirano.

Assim acontece quando os líderes:

  • Não se comportam de acordo com os princípios que proclamampelo que se transmutam nuns verdadeiros hipócritas;
  • Na sua verdadeira hipocrisia, perderamo pudor relativamente ao próprio comportamento porque foramtomados pelo mais confrangedor cinismo;
  • No seu mais confrangedorcinismo, ao agirem sem qualquer preocupação pelos malefícios que provocam,transformam-se nuns perfeitos levianos;
  • Na sua maisperfeita leviandade, ao perderem a vergonha,perderam, também, o respeito daqueles que lideram.
  • Ao perderem o respeito daqueles que lideram escancaram as portas da demagogia quealimenta o populismo;
  • Aoescancararem as portas da demagogia que alimenta o populismo criam condições para o surgimentode multidõesbovinas que são a mãe de todos os tiranos;
  • Ao surgirem multidões bovinas que são a mãe de todos os tiranos transformama liderança numa prática tão inútil quanto perigosa;
  • Ao transformarem a liderança numa prática tão inútil quanto perigosa colocam a organização que lideram num dos lugares mais quente do Inferno;
  • Os lugares mais quentes de Inferno primam pela ausência de espiritualidade, de princípios e de valores;
  • A ausência de espiritualidade, de princípios e de valores traduz-sena mais genuína imoralidade burocrática;
  • A mais genuína imoralidade burocráticaconduz os líderes, não a estarem minimamente interessados em serem úteis, mas, simplesmente,em garantirem a importância que lhes permitecontinuar a usufruir das regalias a que se acostumaram.

Tal como o caixeiro viajante de Kafka há líderes que não ficam minimamente perturbados pelo facto de se terem transformados nuns horríveis tiranos.Eles só se preocupam com a possibilidade de poderem perder o poder. Até porque toda a família, amigos e correligionários dependem da sua posição: Os filhos, a sogra, os cunhados… o genro… mais os subalternos do Partido. Embriagados pelas regalias do poder,acabam agarrados aos mais disparatados rituais de uma pseudorrealidadeque começa nas preocupações com o “dresscode”, passa pelas comendas e sinecuras e acaba nas galas de celebraçãoonde, condecorando-se todos uns aos outros, julgam conseguiro reconhecimento do mundo real.

Entretanto, asmetamorfoses do líder desencadeiam a mais completa desumanização nos mais diversos sectores sociais. A sua esquizofrenia, ou seja,otranstorno psicótico que o afasta da realidade traduz-se em opiniões ecomportamentos que,à semelhança daquilo que Charlie Chaplin, magistralmente, expressou no filme O Grande Ditador,passam a ser objeto escárniopúblico.

De metamorfose em metamorfose chegará o dia em que o líder,tal qual o inseto gigante de Kafka,no seu mais trágico-esplendor,surgirá aos olhos daqueles que amedrontou, castrou e subjugou como um pequeno moscardo que pode ser afastado com um olímpico piparote.

E a família económica, política ou desportivaescolherá outro líder.

 

*Professor da Faculdade de Motricidade Humana

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