O fim dos actuais monopólios na distribuição em Macau ajudaria a reduzir a desigualdade social, diz Hsu Wen-Tai. Mas o professor da Universidade de Gestão de Singapura lamenta haver falta de vontade política para enfrentar os interesses económicos e apostar em mais transparência e democracia.

Macau deverá ter em 2020 o maior rendimento per capita do mundo, 124 mil euros (1,17 milhões de patacas), destronando o Qatar, de acordo com projecções divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional em Julho passado. Mas mesmo o salário mediano, 16 mil patacas no final de Junho, segundo a Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC), é enganador, diz Hsu Wen-Tai, professor de Economia na Singapore Management University (SMU), porque ignora a desigualdade social.
O académico esteve ontem na Universidade de Macau para uma palestra sobre o impacto negativo que a desigualdade de rendimento tem na produtividade e mesmo no próprio nível de vida das classes mais abastadas. Segundo um estudo em que Hsu participou e que analisou dados de 80 países – entre os quais não estava Macau –, quando os ricos ficam ainda ricos há um segmento de empresas que cede à tentação de aumentar os preços para posicionar os seus produtos como sendo de luxo, sem um real aumento de qualidade, o que prejudica a produtividade da economia.
Hsu disse que após a palestra que, no que toca à desigualdade social, o principal problema de Macau não tem a ver com a produtividade, nomeadamente devido às características específicas do território como a pequena dimensão e o papel que tem como destino de jogo para a China continental. O professor da SMU acredita que, tal como em Hong Kong e em Singapura, o maior factor é a existência de monopólios na distribuição.
Embora Macau seja um porto franco e receba regularmente elogios de instituições económicas por ter uma economia livre, na prática existem vários monopólios na distribuição. Por exemplo, o Grupo Nam Kwong, uma empresa estatal da província vizinha de Guangdong, controla o fornecimento a Macau de produtos alimentares frescos, incluindo vegetais e carne. O resultado, frequentemente sublinhado pelo Conselho de Consumidores e por economistas como Albano Martins, é que este tipo de produtos é muito mais caro em Macau do que na cidade vizinha de Zhuhai.
Ainda assim, o último Inquérito aos Orçamentos Familiares realizado pela DSEC em 2012/13 concluiu que o coeficiente de Gini – um dos principais indicadores da desigualdade social – tinha melhorado de 0,38 para 0,35. Uns meses antes a Associação de Economia tinha divulgado dados não-oficiais que sugeriam que, pelo contrário, o índice tinha piorado para 0,4. Ou seja, que os mais ricos de Macau ganhavam em média 9,3 vezes mais do que os mais pobres.

Vontade política
A liberalização do comércio iria “sem dúvida” ajudar a mitigar a desigualdade de rendimento na região, defende Hsu. O comércio livre aumenta a diversidade de produtos disponíveis no mercado, tornando a competição mais feroz, explicou o economista. Só as empresas mais eficientes, aquelas que reduzem a relação entre custo e produção, baixando os preços, conseguem sobreviver, diz Hsu. “Os ganhos de produtividade criados pelo comércio ajudam a mitigar a desigualdade de rendimento”, acrescenta o académico.
Mas depois de feito o diagnóstico o académico admite que a cura não seria fácil de implementar, sobretudo por falta de vontade política. “Em primeiro lugar há sempre a questão de haver ou não conluio entre o Governo e os beneficiários destes monopólios”, explica Hsu. Mesmo que não haja, acrescenta o economista, as autoridades têm pouco a ganhar ao tentar ir contra interesses económicos poderosos.
“Portanto, quem é que sobra para fazer frente ao Governo?” pergunta Hsu. Tirando raras excepções, como por exemplo os protestos em 2014 que obrigaram o Executivo a retirar uma lei que concedia generosas subvenções a antigos políticos e governantes, a população de Macau tem tido um comportamento político muito mais passivo do que, por exemplo, as novas gerações da região vizinha de Hong Kong.
“Mais transparência seria uma ajuda, assim como mais democracia”, defende o professor da SMU, “mas Macau, Hong Kong e Singapura não são lá muito democráticos”. Embora haja eleições directas por sufrágio universal para somente 14 dos 33 lugares na Assembleia Legislativa, tanto a União Europeia como os Estados Unidos têm criticado regularmente o método de selecção do Chefe do Executivo, que é escolhido por um colégio eleitoral com apenas 400 membros.

Facebook
Twitter
Instagram