O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira, que virou um “troféu” da operação Lava Jato, pela qual cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão na superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Em depoimento à juíza Gabriela Hardt, substituta de Sérgio Moro, que se afastou das atividades de juiz após aceitar o convite do presidente eleito Jair Bolsonaro para ser ministro da Justiça, Lula declarou que se considera “um troféu que a Lava Jato precisava entregar”.
“Não sei porque não gostam de mim, mas sou um troféu que precisavam entregar”, declarou Lula durante uma audiência de mais de três horas na sede da Justiça Federal do Paraná.
Durante o depoimento, Lula voltou a negar ser o proprietário do sítio em Atibaia ou ter conhecimento das obras realizadas no local por empreiteiras, o que motivou o processo.
No início do depoimento, Lula e a juíza Hardt discutiram brevemente quando o ex-presidente questionou se a justiça o considerava proprietário do sítio.
“Se o senhor vai começar com este tom comigo vamos ter problemas”, reagiu a juíza.
Lula se disse “cansado de mentiras”, e em vários momentos criticou a apresentação em powerpoint realizada por procuradores da Lava Jato que o apontavam como o chefe de um amplo esquema criminoso.
“Quando vi o powerpoint disse ao PT que se fosse presidente do partido pediria para que todos os membros, do Brasil inteiro, processassem o Ministério Público para que provasse este powerpoint”.
Perguntado sobre se o sítio em Atibaia passou por reformas durante a Copa do Mundo do Brasil-2014, Lula reagiu com bom humor e respondeu: “quem estava passando por reformas nesta Copa era a seleção”.
Quando um dos presentes se desculpou por sair mais cedo da audiência, o ex-presidente brincou: “Não quer me levar com você?” – provocando risadas na sala.
Antes do ex-presidente, foi interrogado por cerca de uma hora o pecuarista José Carlos Bumlai, acusado de lavagem de dinheiro no âmbito do mesmo processo, que abrange 13 pessoas.
Lula, de 73 anos, chegou à sede da Justiça Federal em um carro da Polícia Federal no início da tarde. Uma forte operação de segurança acompanhou a caravana que deixou a superintendência da PF, em frente à qual dezenas de militantes cantavam e agitavam bandeiras de apoio ao ex-presidente (2003-2010).
O comboio deixou o prédio por uma porta traseira. “Sabíamos que não iam dar o gosto a Lula de nos ver, mas mandamos ânimo a ele do mesmo jeito para que sinta nossa companhia”, disse Susi Montserrate, na vigília que se instalou em um terreno vizinho desde que Lula foi preso, em 7 de abril.
Pela manhã, o líder da esquerda recebeu seus advogados e Fernando Haddad, candidato do PT derrotado nas presidenciais de outubro, nas quais foi eleito Jair Bolsonaro com 55% dos votos.
Deputados e senadores do PT acompanharam a manifestação, assim como grupos mais numerosos de pessoas que foram até a sede da Justiça Federal do Paraná.

– Outros processos –

Nesta ação, Lula responde por supostamente ter se beneficiado de reformas pagas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht entre 2010 e 2014 em um sítio em Atibaia, interior de São Paulo. A promotoria o acusa de ser proprietário de fato do imóvel e de ter retribuído estas benfeitorias com vantagens em contratos com a Petrobras.
A defesa de Lula insiste na inocência do cliente e assegura que a propriedade não é dele.
Segundo especialistas, a sentença dificilmente vai sair antes de um mês e o mais provável é que seja proferida depois do recesso de fim de ano no Judiciário.
Na condenação de 12 anos e um mês de prisão, que cumpre atualmente, Lula foi considerado beneficiário de um apartamento no Guarujá, litoral de São Paulo, que teria recebido da OAS, também em troca de sua mediação em contratos com a Petrobras.
Lula responde a outros quatro processos, por corrupção passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. Em todos se declara inocente e denuncia uma conspiração para evitar que volte ao poder.
Em outubro, em plena campanha eleitoral, Bolsonaro afirmou que Lula vai apodrecer na prisão.

– A juíza Hardt, linha dura como Moro –

A escolha de Moro como ministro de Bolsonaro foi vista pela defesa de Lula como a prova definitiva de que Lula foi processado, condenado e preso sem ter cometido nenhum crime, com o claro objetivo de neutralizá-lo politicamente.
A saída de Moro abre uma nova etapa na “Lava Jato”, operação que levou para a prisão ou ao banco dos réus centenas de empresários de primeira grandeza e dirigentes de quase todos os partidos, ao revelar um esquema de propinas, obtidas em troca de contratos com a Petrobras.
Gabriela Hardt, de 42 anos, é considerada uma juíza linha dura. Magistrada desde 2009, é substituta de Moro desde 2014. Ela comandará a investigação até ser escolhido o juiz titular que ficará no lugar de Moro.