BILHETE POSTAL
Eduardo Oliveira Costa*
“Há remendos no betão da estrada pois os cadáveres estavam agarrados ao piso e foi preciso remover”. O motorista do município de Pedrógão Grande explicava a tragédia dos incêndios do ano passado, onde o
fogo matou 66 pessoas. “Ali, naquela casa, morreram pai e dois filhos”, “ali morreram quatro pessoas, um casal que vive em Lisboa que estava de visita aos pais”. Parámos num pequeno tanque de água na berma de uma estrada. “ Este é o famoso tanque onde várias pessoas se refugiaram, o fogo passou por eles e não morreram”. A informação continuava a sair da boca daquele homem, que tinha andado naquele dia de um lado para o outro a retirar pessoas do “inferno” em que se tornou quilómetros de área
habitada. Nós só conseguíamos imaginar o terror que viveram.
Passámos pelo quartel dos bombeiros, onde um grupo de jovens voluntários aprendia a arte. Com amargura, o homem desabafou. “Não tem sido fácil recrutar e manter os voluntários mais antigos. Pelas
mentiras e deturpações da verdade por quem não esteve cá e agora é fácil acusar. São arguidos em processos-crime, quando fizeram tudo o que era possível naquela confusão, no desespero que se viveu. Não é justo e muitos bons voluntários afastaram-se”.
Culpados, se os houve, a Justiça haverá de se pronunciar. Mas, a acusação a quem viveu a tragédia tem que ser muito bem sustentada. A dúvida instala-se e o julgamento na praça pública pode condenar inocentes.
O que seria muito grave. Muito mais, se esses inocentes sofreram e deram de si o melhor que lhes foi possível, em circunstâncias tragicamente difíceis.
*JORNALISTA, PRESIDENTE DA
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DA IMPRENSA REGIONAL