A decisão sobre o sucessor de Michel Temer como 38.º Presidente da República Federativa do Brasil está marcada para hoje, 28 de outubro, onde 147 milhões de brasileiros irão às urnas exercer o seu voto.

Unidos pela nacionalidade portuguesa, mas afastados ideologicamente, portugueses que vivem no Rio de Janeiro lamentam a insegurança sem controlo e dividem-se entre Haddad e Bolsonaro nas eleições presidenciais.
De idades e formações académicas diferentes, o olhar sobre a política depende mais da sua história pessoal que da nacionalidade que têm.
Carolina Mota é uma engenheira civil de 32 anos que nasceu no Brasil, mas que aos nove anos foi viver para a cidade de Espinho, no norte de Portugal. Seria a crise económica que Portugal atravessou que, anos mais tarde, em 2013, a traria de volta à sua cidade natal, ao Rio de Janeiro.
Recorda-se com detalhe da sua infância passada em solo `carioca` e lembra-se da proliferação da violência no bairro onde vivia. Na visão de Carolina, o Brasil dessa época era ainda mais perigoso do que é atualmente.
No entanto, aos poucos, a portuguesa viu a criminalidade aumentar, a cidade a degradar-se, o aumento de abandono de bens públicos e considera que, hoje em dia, a violência é maior do que aquela que abalava a cidade há cinco anos.
Num período político atípico, Carolina vê a eleição presidencial ser regida por valores morais ao invés de ideologias políticas e, para a jovem portuguesa, a opção válida para governar o país é Fernando Haddad (Partidos dos Trabalhadores, PT).
«O PT esteve 13 anos no Governo e em momento algum ameaçou a democracia. Já o Bolsonaro (Partido Social Liberal, PSL) tem um discurso diferente, que ameaça a democracia e ameaça valores éticos e morais. Para mim isso é o mais importante», defendeu.
Igor Ferreira, também de 32 anos, fez questão de acompanhar a sua mulher, Carolina, no regresso ao Brasil.
No plano político, o arquiteto rejeita tudo o que o candidato Jair Bolsonaro defende: «Vejo esta situação com muita tristeza porque o Bolsonaro é contra tudo aquilo que eu sou a favor. Sou a favor da inclusão dos negros, dos homossexuais, das mulheres. A situação da desigualdade de género é surreal no Brasil: Tenho colegas de trabalho que têm um salário inferior ao meu por serem mulheres», afirmou.
Hugo e Patrícia são outro casal de portugueses que escolheu o Brasil para viver. Vindos de Coimbra, Patrícia percebeu no Brasil como funciona a desigualdade de género.
«Estive a trabalhar numa empresa, entretanto tive um filho e quando acabou a licença de maternidade a empresa mandou-me embora», uma situação que «toda a gente diz que é normal acontecer», lamentou Patrícia Sampaio.
Com medo de uma eventual ditadura, a jovem mãe recusa ficar no Brasil caso vença Bolsonaro: «Não vamos ficar aqui para assistir. Temos visto alguns relatos do que foi a ditadura e não quero que o meu filho, com pais europeus, assista a isso, porque lá nós não estamos perante esse tipo de cenário».
Para Hugo Repolho, marido de Patrícia, a verdadeira mudança no Brasil deu-se após o final dos jogos olímpicos.
«A partir de 2015 houve um grande decrescimento no país, principalmente por dois motivos: por um lado acabaram-se as grandes obras, como os jogos olímpicos e o mundial de futebol, e por outro lado porque a crise, tanto interna económica, como a crise externa, acabou por atingir o Brasil, e em particular o Rio de Janeiro», afirmou Hugo.
Pedro Neves está no Brasil há seis anos. Trabalha na área da consultoria e admite estar a viver este momento político com alguma apreensão: «Do lado da direita, o que se apresenta é uma proposta radical e feita de uma forma tão irracional, que não apresenta ideias para o país de uma forma construtiva. O que nós vemos são ideias muito baseados no ódio, que são trabalhadas nas redes sociais de uma forma muito distorcida e para mim (Bolsonaro) não é sequer uma opção».
Para a vereadora no Rio de Janeiro Teresa Bergher, nascida em Viseu e a viver no Brasil desde os 10 anos de idade, as manifestações de ódio provenientes de discussões políticas é aquilo que mais a preocupa.
Sem dizer em quem vai votar, recusou qualquer expressão de fascismo: «Nós não queremos que regimes ditatoriais ou mesmo pessoas que se manifestem de uma forma que nada tem a ver com o futuro do Brasil».
Por seu turno, Felipe Mendes, responsável pelo semanário Portugal em Foco, admite que agora está a torcer por Bolsonaro.

 

«O maior problema de que o poderiam acusar é de ser corrupto. Ele não é, ou pelo menos ninguém descobriu nada até hoje, algo que é fácil de descobrir. Chamam-no de homofóbico e eu já vi o Clodovil (um estilista homossexual) a elogiar a postura do Bolsonaro. Dizem que é contra os judeus, e eu já vi o Bolsonaro em Israel a trazer projetos para implementar no Nordeste do Brasil. Dizem que é contra os negros, mas o deputado mais votado do país foi do partido dele e é um deputado negro. Dizem que é contra as mulheres, mas a segunda deputada mais votada é uma mulher do partido dele», argumentou.
Gonçalo Carvalho, é um empresário do ramo da restauração. Está no Brasil há quatro anos e concorda com a maioria da comunidade portuguesa, no que diz respeito ao aumento da criminalidade.
«Temos notado todos os dias a criminalidade a aumentar. De dia para dia o número de assassinatos e de roubos aumenta e nós acompanhamos estes acontecimentos pelas notícias e conseguimos ver isso», afirmou Gonçalo que, tal como Felipe, vê na falta de envolvimento em casos de corrupção, uma vantagem para Bolsonaro.
Outro apoiante de Bolsonaro, mas com uma relação diferente com o Brasil é Marcelo Cerqueira, que nasceu no Rio de Janeiro, tendo-se mudado para Braga em criança. Em 2010 decidiu regressar ao seu país de origem.
«O PT já teve a oportunidade e fazer todas as mudanças e não tem forma de agora aparecer e dizer que vai consertar o Brasil quando o PT é o único responsável pelo estado em que o Brasil chegou. A única alternativa chama-se Bolsonaro. Temos de vestir essa camisa», defendeu.