Dois investigadores raianos colocaram mãos à obra para recolher testemunhos vividos por quem um dia partiu ‘a salto’ em direção a França, reunindo as histórias no livro ‘Caminhos de l Demonho’.

O livro contém testemunhos fidedignos de quem, nas décadas de 60 e 70 do século passado, passou clandestinamente a fronteira.
«Após três anos de investigação descobrimos que havia três rotas possível para os emigrantes clandestinos chegarem à fronteira entre Espanha e França”, disse um dos autores do livro, David Casimiro, em declarações à agência Lusa.
Os testemunhos que demoraram três anos a ser recolhidos são da responsabilidade de David Casimiro e Guilherme Filipe, e a investigação aborda o tema da emigração clandestina nos concelhos raianos de Mogadouro e de Miranda do Douro, no distrito de Bragança, entre os anos 1960 e 1970.
Durante percurso, os candidatos a emigrantes deparavam-se com um conjunto de obstáculos naturais e climatéricos, próprios da raia seca e raia molhada, que separa Portugal de Espanha no território do Planalto Mirandês e com a «implacável» perseguição dos agentes da autoridade ao serviço de Salazar e Franco.
«Com os testemunhos reais de dois passadores, foi possível desenhar um primeiro mapa da emigração clandestina neste território. Acreditamos que os concelhos de Mogadouro e Miranda do Douro foram uma grande plataforma de passagem de emigrantes clandestinos durante o tempo da ditadura e da guerra colonial», vincou o investigador.
David Casimiro e Guilherme Filipe não têm dúvidas que o território do Planalto Mirandês, foi o ponto de partida de muitos emigrantes um pouco de todo o país.

«Havia outras zonas, como o concelho de Vinhais. Porém, apresentava maiores perigos para os clandestinos. Um dos nossos testemunhos indica que ficou preso quando tentava passar outras pessoas para Espanha por este concelho», exemplificou.
Com a leitura do livro, é possível depreender que o passador não acompanhava o passante e tinha um conjunto de colaboradores e informadores a quem dava ordens no percurso até à localidade espanhola de Irún, no País Basco.
«O passador era o topo da pirâmide, que era acompanhado por um colaborador de confiança, e depois havia os engajadores que andavam pelas localidades, de forma muito discreta, à procura de quem queria passar a salto para França», sintetizou David Casimiro.
Os autores do livro “Caminhos de l Demonho” que, durante este percurso, foram ouvindo passadores, passantes, engajadores e colaboradores diretos, pretendem homenagear todos aqueles que um dia decidiram deixar a sua terra e partir para um outro país à procura de «uma vida melhor».
«Por vezes havia situações de extrema pobreza, piores que aquelas que deixavam nas suas terras de origem», observou.
Os autores, David Casimiro e Guilherme Filipe, não colocam de lado, uma segunda edição deste trabalho, já que há novos testemunhos de emigração clandestina que vão chegando.

 

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