BILHETE POSTAL
Eduardo Oliveira Costa*
O taxista lisboeta, na casa dos 50, que me conduzia, resolveu fazer uma chamada. Ao telemóvel falava com um serviço qualquer, de um banco, para ser esclarecido sobre qualquer coisa de um empréstimo.
“Enviar um e-mail? Mas, minha senhora, não tenho nada dessas coisas!” “Ir ao vosso site? Já lhe disse que não tenho nada disso!”
Pelo desenrolar da conversa percebi que do outro lado da linha a”senhora” não estava a acreditar. “Mas, não posso resolver por telefone, tenho que lá ir?”, insistiu. “Pois, mas eu não tenha nada dessas modernizes de e-mail, facebook, internet…”
Resignado, resmungou para si.“Obriga-me a gastar tempo para me dar uma informação que pelo telefone resolvia! Se podia ser por essa coisa de e-mail porque não podem esclarecer/me por telefone? Ainda achou que eu estava a mentir…”
Quase três quartos dos portugueses já usam a internet. Eram dois terços há cinco anos atrás. Mas, ainda há cerca de um quarto da população que não usa. Apesar disso, praticamente todos os serviços optam por soluções apenas com base na Internet. Excluem, assim, um quarto da população.
E, como me apercebi, não se trata apenas de população que vive nos recônditos lugares do nosso país. Estava na capital. Com um taxista. Na meia idade.
São os chamados infoexcluidos. Assim são designados na estatística. Pessoas raras nos dias que correm. Mas, ainda são cerca de três milhões!
Há que ter em conta esta realidade e não vivermos excluindo tantos milhões de portugueses do acesso a tudo a que têm direito.
EDUARDO COSTA, jornalista e presidente da Associação Nacional da Imprensa Regional